Comentário sobre o texto “A Arte” presente no livro “Nietzsche e a filosofia” de Gilles Deleuze.
A arte é a mais alta potência do falso. Friedrich Nietzsche
Para Friedrich Nietzsche, a arte que é julgada do ponto de vista do espectador se torna objeto de desinteresse. Surge como forma de cura, como sublimação, como suspensão do desejo. Perde-se, desta maneira, justamente daquilo que constitui na arte sua força realizadora e propulsora do desejo em estado genuíno, autentico. A arte que não propõe uma estética do criador está a serviço de um interesse outro que não ela mesma, e se torna um meio para um fim, instrumento que consequentemente não fala de si, se torna apenas um espaço vazio para o deleite fantástico (ou fanático?) do espectador.
A respeito da arte como estética do criador, Deleuze cita o mito de Pygmalião, um escultor que ao se apaixonar por sua obra de arte, uma bela mulher talhada em pedra de marfim, deseja silenciosamente que sua obra ganhe vida. Um dia ao chegar a casa o escultor beija sua estatua e descobre seus lábios quentes, beija-a de novo e descobre que o corpo nu de marfim não tinha mais a dureza da pedra, a deusa Vênus a havia transformado numa mulher real. Pygmalião então esposa sua obra de arte e faz-lhe filhos. O mito traduz o desejo mais profundo do artista: querer tornar sua obra de arte viva, transformar criação em verdade, e realizar-se realizando-a.
Quando Deleuze fala sobre Nietzsche e a obra de arte, destaca dois pontos que fundam a concepção nietzschiana sobre a arte: primeiramente, uma concepção de arte como atividade absolutamente desinteressada. O desinteresse aqui é a afirmação da arte como princípio Ativo, ele se baseia no próprio paradoxo: a arte como princípio ativo na realidade sendo simultaneamente incessante destruição e negação da realidade. É chamada atividade desinteressada porque deve ser plenamente inútil. Na esfera da arte a atividade e a afirmação acontecem á medida que são a própria destruição e negação da criação de verdade, e, portanto, de mundo. A arte depende desse paradoxo para permanecer viva, e deve servir apenas a si mesma, sendo seu único sentido possível a própria negação de sentido.
Geralmente usamos a palavra “verdade” para expressar adequação, isto é, quando desejamos estabelecer através dela o correto de uma afirmação. A verdade pensada neste sentido se restringe á constatação de um estado de coisas. Torna-se algo verificável pressupondo a existência de uma realidade constante para os sentidos; ou então, assumindo que os sentidos sejam constantes para o mutável da realidade. Chegamos então ao segundo ponto fundamental para Nietzsche: “a arte é a mais alta potência do falso, torna magnífico o mundo enquanto erro, santifica a mentira, faz da vontade de enganar um ideal superior”[1]. O artista é aquele que sabe e assume a mentira como fundamento da realidade, como o fundamento próprio da verdade. O filósofo francês Maurice Blanchot faz uma análise parecida sobre a arte da literatura:
Observemos que a literatura, como negação dela própria, nunca significou a simples denúncia da arte ou do artista como mistificação e engodo. Que a literatura seja ilegítima, que exista nela um fundo de impostura, sim, certamente. Mas alguns descobriram mais, a literatura não é apenas ilegítima, mas também nula, e essa nulidade constitui talvez uma força extraordinária, maravilhosa, a condição de ser isolada em estado puro. (...)
O que está escrito não é nem bem nem mal escrito, nem importante nem vão, nem memorável nem digno de esquecimento: é o movimento perfeito pelo qual o que dentro não era nada veio para a realidade como algo necessariamente verdadeiro, como uma tradução necessariamente fiel, já que aquele que ela traduz só existe por ela e nela.[2]
O movimento de negação que o artista lidera com intemperança não pode se confundir jamais com a negação do mundo enquanto atividade. A atividade é o traço mais importante da arte, porque o homem que nega o valor da atividade imediatamente recorre ao mais pobre dos estados de espírito: a renúncia da vontade de potência. A renúncia do artista deve consistir unicamente na renúncia da verdade como adequação, a aceitação plena deve jorrar de suas têmperas cada vez que a aparência das coisas surge como a única verdade possível. A força que a sociedade impõe através da verdade é extremamente persuasiva, transforma o caos em ordem e declara valores de domínio universal antes que os homens se dêem conta do caráter falso e, portanto, livre, da realidade. Se ao menos uma vez duvidamos de sua veracidade certamente duvidável, é possível que tenhamos que agir com extremo rigor para permanecer destituindo esta força aprisionadora de seu trono, quanto a isso Deleuze remarca a partir da filosofia de Nietzsche, que a afirmação da vida é a própria força de vontade do falso que para ser efetuada deve ter sua potencia redobrada, selecionada, repetida e elevada a uma potencia mais alta[3]. A força da mentira precisa se afirmar positivamente acima do poder aprisionador da palavra, aquilo que constitui a própria existência da palavra: o sentido, deve ser negado. A palavra precisa se afirmar na negação do sentido consensual que foi previamente estabelecido assim como a tinta do pintor precisa se afirmar como luz antes de ser imagem, e antes como cor que como luz. No mesmo sentido o cinema precisa se afirmar antes no movimento em falso que na imagem em movimento, e a arte precisa, finalmente, ser criação antes de ser narração.
Resta se perguntar se a prisão conceitual em que nos encontramos e com a qual convivemos talvez permanentemente não é o que apega o homem á verdade, ainda que em última instância gargalhemos a cada vez que a verdade surge tola face a imensidão dos sentidos múltiplos das palavras e das várias realidades possíveis. É preciso perguntar se somos apenas a história de um povo admirado com o poder seguro dos conceitos, ou se realizamos nossa humanidade nesse aprisionar-se á ele para depois afirmarmos a capacidade de se desfazer a cada vez dessa necessidade. É perguntar se não buscamos dar um sentido coerente á vida, construindo mundo, para que justamente possamos gargalhar depois de tê-lo destruído - e nesse movimento se fazer senhor do próprio destino. É perguntar enfim, se a guerra não é o movimento imperativo daquele que está vivo, se o ciclo de construção e desconstrução não é intrínseco ao próprio ciclo da vida, e talvez entendermos o surgimento da tragédia já no mundo dos gregos e percebermos a necessidade de tragédia como o indício primeiro da arte desinteressada. A arte trágica teria então o maior privilégio diante de toda forma de arte, pois seria tão plenamente pulsão de vida transformada em pulsão de morte, seria tão somente vontade de potência.
Não é a toa que a concepção de arte que Nietzsche defende é chamada por ele de trágica, porque é na tragédia que o mundo se mostra radicalmente sem sentido. Édipo é avisado de sua desgraça, sabe previamente que irá esposar sua mãe e matar seu pai, e por isso foge do seu destino, mas justamente porque foge, realiza o destino. A tragédia de Eurípides apenas constata que o Destino é o sentido imperativo da vida, que recusa toda explicação e destrói qualquer artimanha intelectual que requeira para si o sentido do mundo. A tragédia é aquilo que jamais poderia acontecer em tempo algum e de forma alguma, que está fora de qualquer compreensão possível, mas sempre retorna e sempre há de retornar com força terrível aos homens.
O artista ama a tragédia como o louco ama a insanidade.
[1] DELEUZE,Gilles.Nietzsche e a filosofia,
[2] BLANCHOT,Maurice.A parte do fogo - A literatura e o direito a morte,
[3] DELEUZE,Gilles.Nietzsche e a filosofia.
Hm,
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