sábado, 30 de março de 2013

Vagas no asfalto


Rebenta por vezes um pensamento escuso: o próprio cogitar assim tranquilo ressoa como se houvesse o estado mágico de não pensar. Sem projetar respostas de filósofos e sem gostar de maquinar a certeza de estar sempre em pensamento, e sobretudo sem disfarçar a propensão de escrever alegremente. O tempo de estar vivendo é sobre o cogitar. A estrutura metálica das suposições é lenta e não se compraz de vastas pequenas correções temporais, segundos e milésimos atravessam como um burro enfezado a respeitosa abundância de pensamentos magnos. Paciência é o que sussurram os músicos da repetição, antes eram filósofos que não se conformariam em pensar a nitidez do mundo moderno, que antes de se envolverem com o estado de crônica insatisfação econômica, circundariam as excruciantes vagas silenciosas que percorrem as ruas de asfalto. O tempo de esquecer e o cogitar sejam seres torpes perto da obscura luz de um pensamento magno que só o espelho de um clarão inevitável poderá dizer, e por enquanto caminharemos na direção da vaga luz dos céus da Bahia, as voltas com pedidos `as estrelas, cadentes que somos na verticalidade da noite. Receio descobrir que músicos foram homens e filósofos foram músicos, sem música, com tempo, sem tambor, com cordas de vaga intuição. Acordo com a fraca soma de pensamentos miúdos que penso durante as 24 horas. Faço incursão, incorro em artifícios matemáticos, e sou lógica das vagas estrelas, o tempo que segue fraca intuição, e cogita o tempo de terminar, um começo todo, enquanto poética vontade de descrever engole, o soberbo medo de encontrar: início dos tempos, vaga de vontade, estrelas estáticas.  

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Virtudes

ou, Gerry de Gus van sant

Os numeros na escuridão. Dedos de mulher. Cânticos que fazem brilhar talvez almas perdidas, jovens rapazes que vivem aqui. Forma desesperada é o indício do fim próximo, é também perfeiçao se afeiçoando de um homem, e a tristeza não vem tao próximo quanto se quis, quando o homem decide o seu lugar no sono, onde os sonhos são cânticos, e o ritmo encolhe suas maos, suas pegadas, seu corpo, assopra nos seus labios a palavra cor de índigo. Temidas virtudes de ausencia milenar, estou aqui. Sou eu o sonho que sonhavas, sou teu obreiro de mais profundo rancor, ora, males não há mais, fortuna sois tu, que sonhou com o anjo do amor, com as virgens de seios fartos, com a madona do mundo inteiro. Fortuna soa em meu ouvido, campina acorda nos teus. Males não há mais por aqui, traiu-se o rei e as paragens reclamam a lonjura de uma tristeza distante, amarias tu tais pastos? Vastos homens de outrora, vastos homens de agora, doce manhã.  

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

O Anfitrião


              

A importância de dizer algumas palavras pode se tornar a necessidade de confessar uma falta ou saudade. Não devemos atender ao chamado tão prontamente assim, antes podemos fechar os olhos e engatilhar outros pensamentos despedaçados, revolver no tempo a vertigem de ter chegado ao lugar de segurança , ou relembrar caótica e contente a memória de um amor. No estado de contemplação em que se encontra a natural calma de quem acaba de chegar estão também presentes seus maiores inimigos, a dor da saudade e a iminência de remoçar o erro. Aproveitemos a oportunidade para conhece-los melhor, sejamos corteses com nossos queridos inimigos, façamos com que pertençam em nós como estando em sua casa: ofereçamos o alimento afável de cada refeição, o leito onde irão descansar e dormir, e a água do banho que os farão mais limpos. Assim os mantemos sempre fiéis e observados, alegres e encantados com sua nova casa. A presença desses calorosos visitantes há de lhes ser proveitosa das mais variadas formas, aprenderás a conduzir uniformemente a estadia de um ente dentro de si, aos poucos te tornarás anfitrião em sua própria casa e assim escolherás seus visitantes com doçura e desconfiança, se tornando um grande acolhedor de almas perdidas. Pois se aquele almeja estar em casa deve antes se tornar um bom anfitrião, e de passo em passo deixar entrar seus visitantes, abrir-lhes as portas, aos bons, maus e indiferentes, com emprego e circunspecção, saberá então o valor do humor mediano, traçarás conversas e servirás comida com um bom inimigo sem pestanejar sua presença duradoura. Sua permanência se tornará pequena e circunstancial pois serão sempre seus meros visitantes. Ao fim de cada estadia desejar-lhes outros bons anfitriões, que lhes sirvam tão bem e gentilmente como nós, nesse dia anoitecerá mais cedo e o seu sono será maior e mais solto que nos outros dias, seu corpo ser-lhe-á grande e confortável, os cabelos mais longos e finos, e as mãos mais cálidas e sutis; e quem sabe surja então diante de tamanha altura e força dos ossos um homem que pertença em casa, na saudade do lar e na escuridão da estadia. Grato pela imensa sombra que o atingiu ele descansará na redonda e perfeita noite da sua solidão.



sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Febre do Rato


 

“Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos cantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto, acima de tudo pergunte na hora mais tranquila de sua noite...” Rainer Maria Rilke, Cartas a um jovem poeta.

 

Beirando a loucura no abismo do rio que divide a cidade, o rapaz berra aos céu com seu alto-falante - inaudível e protegido. A distância do barco até a ponte o separa da agressividade perversa e implacável do mundo que o rodeia, a imagem revela saturada um rapaz que se contorce em dizer o calado pelos outros – estáticos.

Donde o desespero de Zizo em contornar o estado de alienação dominante, é político? A cólera pode ser arma-dura contra a opressão. O anarquista que grita de plenos pulmões pode ser tão somente um publicitário do seu próprio ego, alerta a personagem Eneida. A questão jaz talvez na concepção do que seja esse grande outro opressor, na sua face obscurecida pela modernidade líquida, na privação do inimigo contrastante que facilmente reconheceríamos se fosse passível de apontamento.  A polícia, o Estado, a alienação, a moralidade, o instinto de Constancia e outros, são respostas possíveis. Quando tudo isso soa distante, a pergunta volta, e é preciso refazê-la. A política, o que é? Hoje o filme “Febre do Rato” refaz essa pergunta, e o que significa refazer a pergunta acerca da política? É preciso saber então o significado desta palavra antes e hoje, penetrar no surgimento desse substantivo e questionar sua origem.

A palavra “política” deriva do grego polis, que significa Cidade. Tudo aquilo que haveria de ter relação com os assuntos da Cidade foi por eles caracterizado com adjetivo “político”. A política não é, a princípio, o agrupamento de leis, a regulamentação de um sistema, a organização de um Estado, o estabelecimento ou a divisão de um poder, mas sim, tudo aquilo a que essas determinações servem: a Pólis. E a pólis,por sua vez é o conjunto de todos os elementos que compõem a unidade de um território, e a própria determinação desse território enquanto foi conquistado e deve ser mantido por um certo grupo de pessoas. A polis define um espaço físico, comporta indivíduos em grupo que se estabelecem ali habitando por tempo ilimitado. Dessa maneira organiza-se uma definição concreta: a polis é um lugar no espaço, um lugar definido por uma fronteira limitadora. Podemos reconhecer paralelamente a esta definição, uma outra que lhe é derivada. A manutenção desse limite que interrompe o espaço de atuação de um grupo é estabelecida pelo poder e pela força. É sobretudo o domínio dessa área de atuação que mantém, arriscando um equilíbrio delicado, a unidade do território e uma identidade comum a esse grupo de pessoas. A política é o necessário para que uma concentração de pessoas que almejam permanecer sob  domínio de um espaço se estabeleça. Propriamente, a política é a construção delicada de uma fronteira que separa a cidade do seu entorno, sua organização interna que estabelece como prioridade eternamente vigente defender-se do grande Outro, do Bárbaro não civilizado, mantê-lo fora do dentro da cidade. O poder e a hierarquia se instauram de dentro com o objetivo de estabilizar a densidade perigosa dos dois espaços apartados. Toda a moral é construída derivando o significado de bem e mau a partir dessa identidade social reforçada, de uma hierarquia erigida sob o temor opressivo do fora, de tal maneira que imediatamente se identifica os paradigmas de Bom com o que é em prol da manutenção da polis, e  de Mau com a ruptura dessa manutenção:

 

“assim, por exemplo, este axioma: a moralidade não é outra coisa (e,portanto, não mais!) do que obediência a costumes, não importa quais sejam; mas costumes são a maneira tradicional de agir e avaliar. Em coisas nas quais nenhuma tradição manda não existe moralidade. O homem livre é não-moral, porque em tudo quer depender de si, não de uma tradição: em todos os estados originais da humanidade, “mau” significa o mesmo que “individual”, “livre”, “arbitrário”, “inusitado”, “inaudito”, “imprevisível”.” Aurora, Friederich Nietzsche.

 

 

 À pergunta inicial: o que significa refazer a pergunta acerca da política? Reconhecemos o que antes haveria de ser definido por essa palavra. O que é ainda hoje vigente dessa concepção anterior? Hoje fala-se muito em liberdade, fala-se sobretudo do direito à liberdade como uma questão política. A palavra liberdade para os antigos não significaria senão uma contradição, sobretudo se essa liberdade significasse a liberdade de um sistema político opressor. A Pólis é antes de tudo um forte muro que protege os homens do perigo, libertar-se disto seria entregar-se ao vazio desertor do lado de fora. Por que e em que medida o homem moderno reivindica liberdade? Certamente não haveríamos de reivindicar algo visivelmente danoso a nós mesmos. Talvez melhor fosse perguntar de quê se quer libertar.  

O homem moderno acredita ter superado as leis fundadas na razão arcaica, que outrora fora encarnada por homens medievais. Os Cidadãos dizem ter superado a crença cega no Deus fantasmagórico e pernicioso, e hoje preferem ser lúcidos e práticos: Deus não precisa existir, basta que exista o Estado – o contrato social. Creem solucionar assim os problemas sociais deflagrados unicamente por questões morais ultrapassadas. Sua altiva visão de mundo quer revelar que a moral antiga é um peso para a humanidade, é preciso funda-la antes e sobretudo na utilidade, afinal não poderiam compreender nada fora da utilidade - lhes pareceria ilógico. Por outro lado, jovens artistas e ativistas da política atuais reivindicam para si o legado de desertores, almejam a destruição do sistema capitalista, que acreditam ser o culpado de todos os males da modernidade. A moralidade é repudiada porque acreditam tê-la superado: e acreditam tê-la superado porque se acreditam plenamente ateus: e se acreditam plenamente ateus porque consideram Deus ultrapassado. Pode acontecer que seu ateísmo seja uma revolta contra qualquer domínio autoritário ou patriarcal que lhes prive o direito de serem livres, acreditam que o capitalismo e a moralidade são em conjunto uma prisão ditatorial que deve ser combatida ferozmente em prol de liberdade. A liberdade é defendida em oposição à ditadura e às leis.

A liberdade é instaurada, segundo a concepção de ambos, como um direito de todos os homens. Liberdade: nada mais que o benefício prévio de uma valorosa negociação, a certificação de que os direitos do indivíduo sejam respeitados. Liberdade talvez não possa ser colocada justamente aí, talvez a assertividade de opinião política, artística ou humanista, não possa aí penetrar.:

 

“Liberdade: ter a vontade de responsabilidade própria. Manter firme a distancia que nos separa. Tornar-se indiferente a cansaço, dureza, privação, e mesmo à vida. Estar pronto a sacrificar à sua causa seres humanos, sem excluir a si próprio.”[1]

 

Que quer dizer a libertação de um indivíduo senão a imersão grande, enormemente povoada de insólito tempo, trabalhada gentilmente e almejada por simples amor, nos flancos de seu próprio homem? Quem poderia argumentar em vez de eu – ali onde o sufocado de palavrório da garganta se cala? O “socialmente” impede a errância de salvar sua existência sempre firme na alma.  Quem sabe, troquemos enfim a palavra por outra – O sexualmente que intervela por tudo, que passando recorre aos sonos miúdos para revelar-se. Queremos e briguemos conosco em sonhos frios e quenturas rastejantes pelo pulo que faz do visto a visão, pela alma só, e pela aurora de todo futuro no presente inteiro. A arte é toda quando vinda de aí, vê-se então que não é de luzes fracas aquele que grita de plenos pulmões, desde que os pulmões estilhaçados do barulho que machuca o híbrido fino sejam eles todos abertos desde as víceras - Poesia, desde de que o homem não mais, ele só, revele orgia de todos instintos, arquétipos, retiros - e não mais o vento bravo que de se ausentar nos momentos sóbrios implica na verdade com os momentos simples, desde que poeta seja só poeta enquanto os artigos definidos sejam por fim abolidos da evocação de suas línguas lancinantes, desde que fale torpe e caído na vala podre que todos compartilham com o nojo humano atravessado por todos os horizontes, desde que a grande Merda se torne o sagrado final dos desejos tremendos de extinção do eu pequeno, desde que Poeta seja Deus torpe e impregnado de um mundo desses que nem ninguém almeja, mundo desses que de tão presente se desfazem, mundo desses que quando aperta o passo os rapazes vestidos amarram o sapato e abrem o guarda-chuva, mundo desses que a pá do defunto não deixa páreo pra tanta lama, mundo desses estrupiado sob o sol grosso que penetra o crânio suando as verdades conhecidas, mundo que se come rente em gente crente e em gente doente. Mundo-esse Mudo que se cratera terroso e cônico no ânus do universo. Mundo-Abismo.



[1] NIETZSCHE,Friedrich.Humano, demasiado humano.São Paulo:Companhia das Letras,2008.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Acreditar na Guitarra


O homem só acredita naquilo que penetrou fundo na alma e modificou-lhe os sentidos. Todo o resto que acredita acreditar é curva do intelecto e vontade de subjulgar a vontade. Tamanha é a pressa que alguns usam para desfazer um julgamento e assim satisfazê-lo, e equivalente a destreza orgânica de um cérebro em vias pré-anunciar-se – comboio de atulhamentos inóspitos é a gente do trânsito. Ainda crê-se no destino regularmente. Donde advém cautela a vista enevoada transfere os temores.  

Rasga a pilhéria dos balanços de criança! Balança a crina do cavalo e some fumegando. Porque tudo que se quer está mais que encontrado. Reclama do mundo submisso fazendo contas na internet, abusa do crime fácil sugando o aspirador da velha empregada, emprega o padeiro para o sustento seu. Gargalho do torpe-do sentido. As Guitarras elétricas são os apontadores que rabiscam certa verborragia nas membranas de uma Fala, suas, pertencentes e permeáveis ao fulo do som magnético – amo-vos porque são inteiros sem jamais precisar ver o mar, amo-vos porque se vissem raros oceanos sem luz seriam deuses. Rapazes bonitos são vós, moças são voz: por isso amo suas guitarras, por isso rezo toda noite.

 

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Agonia



Primeiro o doente sem face. Depois os diversos e vivos homens cantando Onn - pulsam o estado de insanidade inevitável e seus corpos se contorcem uma espécie de dança. Se juntam em sentido e apontam para nós. Remédios. A massa de jovens quer dizer ao velho mas se calam entre si, seus dizeres inibidos. Não sabemos se é por causa dele. O homem velho no mundo dos vivos: palavras e nomes, explicações variadas: a língua reles. É preciso atingir o homem velho de branco, curar sua doença ou ser infectado por ela. A doença toma todos. Burocratas entram na sala: lavar os pés do homem de branco, enxugar, vesti-lo de Papa – os outros já mortos. Sob a cruz em cima da cama, vivos morrem e um doente vira padre.






  

sábado, 21 de julho de 2012

Montagem



Comecemos colocando em evidência o que compreendemos por “Montagem”. Deparamos num primeiro momento com o vasto território em que esta palavra poderia ter e tem significado próprio, todos possivelmente afinados com uma mesma concepção de “montagem”, que difere em cada caso unicamente pela necessidade de particularização do gênero.

 “Montagem” pertence ao vocabulário mais universal quando utilizada em sentido coloquial, donde podemos tirar significados muito esclarecedores sobre a origem e sentido privilegiado dessa palavra; e pertence ao vocabulário específico do Cinema, que se apropria deste significado comum para designar um dos estágios da fabricação de um filme. A definição mais trivial de “montagem”, aquilo que se entende por esta palavra quando a utilizamos cotidianamente sem maiores pretensões, diz ser esta o ato de juntar duas coisas com alguma finalidade. Podem ser elas coisas abstratas ou concretas; coisas meramente imaginadas ou coisas materiais: objetos, cores, palavras, notas musicais, etc. A linha de montagem de uma fábrica convoca seus funcionários para juntar as partes de um produto que chega  fragmentado nesse estágio da produção; um pintor monta o quadro juntando as tintas da palheta de cores; um escritor junta as letras montando palavras; a Montagem, apesar de se diferenciar quanto ao conteúdo daquilo que está sendo montado, tem uma característica comum a todos os casos, a situação inicial de qualquer montagem depara com coisas separadas. Se as partes do produto já estivessem montadas os funcionários da linha de montagem perderiam seus empregos; se as cores já estivessem juntas o quadro do pintor não seria pintado, pois pintar perderia a finalidade; e se as letras já estivessem reunidas, as palavras do escritor não seriam escritas, escrever também perderia a finalidade. Que as letras, as cores, e as partes do produto, estejam separadas é uma condição, e, portanto, uma exigência, da montagem. Estar separado é o ponto de partida do ato de montar. Mas o que significa propriamente, “separação”? Novamente procuremos a definição mais abrangente que esta palavra pode ter, assim talvez nos aproximemos do seu sentido fundamental. A princípio poderíamos compreender “separação” como a disjunção de uma unidade, isto é, como um corte que aparta e divide uma coisa, antes inteira, em duas coisas separadas;mas também podemos compreender “separação” como a simples percepção de que duas coisas são diferentes, neste caso separar não é um ato, mas um princípio de diferenciação. Por exemplo, se ao olhar o horizonte constato que o mar é diferente do céu posso dizer que os dois estão separados, isto não quer dizer que outrora os dois foram uma única e mesma coisa, afirmar que os dois estão separados significa tão somente que mar e céu não são o mesmo.  Em contrapartida, sempre que me refiro a duas partes que outrora foram uma unidade é evidente estou me referindo a duas coisas que, uma vez separadas, não são mais a mesma.  A segunda compreensão parece ser mais vasta que a primeira, à medida que a contém, e é portanto mais precisa com relação ao significado da palavra “separação”. Há, entretanto, um fundamento que permanece comum às duas concepções, trata-se do número 2. Para haver montagem deve haver, no mínimo, duas coisas diferentes. Com efeito, se fossem uma única e mesma coisa ela estaria desde sempre compreendida numa unidade perfeita onde não haveria lugar para se pensar a diferença ou a separação. Disso tiramos a conclusão de que é preciso haver no mínimo 2 coisas distintas para que haja montagem. É importante pontuar que a palavra diferença nesse sentido não está em oposição à noção de igualdade, mas em oposição à noção de identidade. Apenas aquilo que é idêntico a si mesmo não se diferencia. Podem haver mesmo dois fotogramas de imagem iguais que quando colocados em sequencia aparecem segundo uma montagem, o fato de serem iguais não impossibilita que continuem sendo dois fotogramas distintos um do outro, e que possam aparecer segundo uma sucessão de imagens. A montagem pressupõe que devemos distinguir coisas separadas entre si como condição para montarmos elas numa unidade. Devemos ser capazes, portanto, de separar pura e simplesmente uma coisa de outra coisa, o que em ultima instancia pressupõe alguma predisposição para a aritmética, ou pelo menos compreender a essência do numero 1 e do numero 2.

De outra maneira, podemos definir Montagem como aquilo que conduz a uma unidade; e deve chegar a esta por meio da junção de fragmentos que são, eles mesmos, unidades. Nesse sentido as partes e o todo não diferem por serem as primeiras incompletas e a segunda completa, pois as partes não precisam do todo para se tornar unas: elas já o são. Ao contrário do que se intui primeiramente, o todo é que precisa das partes para se tornar uno. Em outras palavras, a unidade é o que define a incompletude das partes, de maneira que elas só podem ser entendidas como incompletas enquanto são partes constitutivas de um todo; separadamente não seriam nem mesmo “partes”. Segundo este raciocínio o todo é anterior ás partes, à medida que as define. Ora, não havíamos concluído que a separação é anterior à junção, isto é, que as partes são anteriores ao todo? Agora concluímos que mesmo a separação em partes depende do todo para ser compreendida enquanto separação. Enquanto tentarmos compreender este paradoxo opondo as duas afirmações, não chagaremos a entender as implicações do todo com as partes. Talvez a conjunção no todo deva destruir a unidade de cada parte, diluindo o que antes eram duas ou mais unidades distintas, numa grande unidade final.

Montagem significa tanto o ato de montar quanto o seu efeito, pode ser uma ação ou o resultado de uma ação, a “junção dos fragmentos” ou a  “unidade dos fragmentos”. Se a definição de montagem fosse sinônimo de “juntar coisas”, todo e qualquer tipo de junção determinada poderia ser chamada de montagem, porém, parece que não é assim que nos utilizamos cotidianamente ou especificamente desta palavra. O que difere juntar de montar? A finalidade. Estabelecemos a principio que montagem era o ato de juntar duas coisas com alguma finalidade, a finalidade é aquilo que define a montagem pela unidade, se almejamos construir uma unidade é porque o ato de unir já se tornou a finalidade desta ação; enquanto a segunda parte da definição fala de um movimento unificador, a primeira parte revela um movimento dissociador; ambos fazem parte do que chamamos de montagem.