sábado, 21 de julho de 2012

Montagem



Comecemos colocando em evidência o que compreendemos por “Montagem”. Deparamos num primeiro momento com o vasto território em que esta palavra poderia ter e tem significado próprio, todos possivelmente afinados com uma mesma concepção de “montagem”, que difere em cada caso unicamente pela necessidade de particularização do gênero.

 “Montagem” pertence ao vocabulário mais universal quando utilizada em sentido coloquial, donde podemos tirar significados muito esclarecedores sobre a origem e sentido privilegiado dessa palavra; e pertence ao vocabulário específico do Cinema, que se apropria deste significado comum para designar um dos estágios da fabricação de um filme. A definição mais trivial de “montagem”, aquilo que se entende por esta palavra quando a utilizamos cotidianamente sem maiores pretensões, diz ser esta o ato de juntar duas coisas com alguma finalidade. Podem ser elas coisas abstratas ou concretas; coisas meramente imaginadas ou coisas materiais: objetos, cores, palavras, notas musicais, etc. A linha de montagem de uma fábrica convoca seus funcionários para juntar as partes de um produto que chega  fragmentado nesse estágio da produção; um pintor monta o quadro juntando as tintas da palheta de cores; um escritor junta as letras montando palavras; a Montagem, apesar de se diferenciar quanto ao conteúdo daquilo que está sendo montado, tem uma característica comum a todos os casos, a situação inicial de qualquer montagem depara com coisas separadas. Se as partes do produto já estivessem montadas os funcionários da linha de montagem perderiam seus empregos; se as cores já estivessem juntas o quadro do pintor não seria pintado, pois pintar perderia a finalidade; e se as letras já estivessem reunidas, as palavras do escritor não seriam escritas, escrever também perderia a finalidade. Que as letras, as cores, e as partes do produto, estejam separadas é uma condição, e, portanto, uma exigência, da montagem. Estar separado é o ponto de partida do ato de montar. Mas o que significa propriamente, “separação”? Novamente procuremos a definição mais abrangente que esta palavra pode ter, assim talvez nos aproximemos do seu sentido fundamental. A princípio poderíamos compreender “separação” como a disjunção de uma unidade, isto é, como um corte que aparta e divide uma coisa, antes inteira, em duas coisas separadas;mas também podemos compreender “separação” como a simples percepção de que duas coisas são diferentes, neste caso separar não é um ato, mas um princípio de diferenciação. Por exemplo, se ao olhar o horizonte constato que o mar é diferente do céu posso dizer que os dois estão separados, isto não quer dizer que outrora os dois foram uma única e mesma coisa, afirmar que os dois estão separados significa tão somente que mar e céu não são o mesmo.  Em contrapartida, sempre que me refiro a duas partes que outrora foram uma unidade é evidente estou me referindo a duas coisas que, uma vez separadas, não são mais a mesma.  A segunda compreensão parece ser mais vasta que a primeira, à medida que a contém, e é portanto mais precisa com relação ao significado da palavra “separação”. Há, entretanto, um fundamento que permanece comum às duas concepções, trata-se do número 2. Para haver montagem deve haver, no mínimo, duas coisas diferentes. Com efeito, se fossem uma única e mesma coisa ela estaria desde sempre compreendida numa unidade perfeita onde não haveria lugar para se pensar a diferença ou a separação. Disso tiramos a conclusão de que é preciso haver no mínimo 2 coisas distintas para que haja montagem. É importante pontuar que a palavra diferença nesse sentido não está em oposição à noção de igualdade, mas em oposição à noção de identidade. Apenas aquilo que é idêntico a si mesmo não se diferencia. Podem haver mesmo dois fotogramas de imagem iguais que quando colocados em sequencia aparecem segundo uma montagem, o fato de serem iguais não impossibilita que continuem sendo dois fotogramas distintos um do outro, e que possam aparecer segundo uma sucessão de imagens. A montagem pressupõe que devemos distinguir coisas separadas entre si como condição para montarmos elas numa unidade. Devemos ser capazes, portanto, de separar pura e simplesmente uma coisa de outra coisa, o que em ultima instancia pressupõe alguma predisposição para a aritmética, ou pelo menos compreender a essência do numero 1 e do numero 2.

De outra maneira, podemos definir Montagem como aquilo que conduz a uma unidade; e deve chegar a esta por meio da junção de fragmentos que são, eles mesmos, unidades. Nesse sentido as partes e o todo não diferem por serem as primeiras incompletas e a segunda completa, pois as partes não precisam do todo para se tornar unas: elas já o são. Ao contrário do que se intui primeiramente, o todo é que precisa das partes para se tornar uno. Em outras palavras, a unidade é o que define a incompletude das partes, de maneira que elas só podem ser entendidas como incompletas enquanto são partes constitutivas de um todo; separadamente não seriam nem mesmo “partes”. Segundo este raciocínio o todo é anterior ás partes, à medida que as define. Ora, não havíamos concluído que a separação é anterior à junção, isto é, que as partes são anteriores ao todo? Agora concluímos que mesmo a separação em partes depende do todo para ser compreendida enquanto separação. Enquanto tentarmos compreender este paradoxo opondo as duas afirmações, não chagaremos a entender as implicações do todo com as partes. Talvez a conjunção no todo deva destruir a unidade de cada parte, diluindo o que antes eram duas ou mais unidades distintas, numa grande unidade final.

Montagem significa tanto o ato de montar quanto o seu efeito, pode ser uma ação ou o resultado de uma ação, a “junção dos fragmentos” ou a  “unidade dos fragmentos”. Se a definição de montagem fosse sinônimo de “juntar coisas”, todo e qualquer tipo de junção determinada poderia ser chamada de montagem, porém, parece que não é assim que nos utilizamos cotidianamente ou especificamente desta palavra. O que difere juntar de montar? A finalidade. Estabelecemos a principio que montagem era o ato de juntar duas coisas com alguma finalidade, a finalidade é aquilo que define a montagem pela unidade, se almejamos construir uma unidade é porque o ato de unir já se tornou a finalidade desta ação; enquanto a segunda parte da definição fala de um movimento unificador, a primeira parte revela um movimento dissociador; ambos fazem parte do que chamamos de montagem.



           
           


             


               

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