domingo, 15 de julho de 2012

Os Três


    

1.       As Mulheres

Queria esculpir o corpo de todas as mulheres. Era ela na cabeça a tão só, pequena e concisa, vontade de reescrevê-las. Ah, como era grata pela vontade que lhe assediava o corpo quando ganhavam tardia plumagem as mulheres escusas - as faces que não foram desfrutadas e os rostos que um dia resplandeceram em trono de Afrodite. Queria forjar encontros e desencontros como se fosse a tarde descendo púrpura, e desenhar um mosaico de pernas róseas raspando a pele leitosa no desenlace das cordas. As Mulheres: tinos de um mesmo alvoroço particular. Fremiam espetáculos travando o músculo longo na mandíbula doce; as peles se encontrando no toque rastejante e as línguas na lambança virginal que sorviam-se.  Cercavam-se pelos flancos tratando no bote transversal da subida densa do calor nó de cobra. Donde a saliva e o suor aguavam, em abundância davam de comer aos insetos preciosa gordura. Hastes de metal firmavam as ristes felinas, com canhotas unhas rasgavam o tremor nas nucas e no coro cabeludo o atrito incendiário apartava, grunhiam aos céus e os gritos lancinantes ecoavam dos subterrâneos infernos.


 2.       As Cusparadas

O diabo entendia na casa desregulada, cactos claros de sombra pequena restavam meses sem água, e a poeira lenta tapava os poros da televisão. O mármore branco da cozinha envelhecia e a ferrugem das cordas vocais só tocava no tom intimista do fraquejar, na geladeira o pote de mostarda era o humos espesso que degradava o amarelo em estranho musgo. A cama, seca, branca, restava no fundo do corredor oferecendo densas visitas de domingo – as mulheres ali sempre, desde há muito, com fluência, participavam do universo extenso, atemporal, vertiam híbridos. Anos largos, cachorros latos e bandeiras, tamancos, tudo girava no quarto, o centro cumpria a tensão dos pólos enquanto dos andaimes caíam homens másculos, da porta  havia o dito: “sobram os anos não vividos” . Relaxar no salão, o ambientado do colchão duro intera a coluna, esticando os vícios, desmontando-se no chão. Raios de sol flanando pela tarde, as janelas e os gases lacrimogêneos da revolução, lábios ultra-vermelhos tentando lamber, ácidas cusparadas.


3.       O Cardíaco

As sombras de um pensamento terrível se apossaram. O amor que devora é um machado no peito de quem sangra sem as mãos para afagar. Sinto mais medo do que antes. Ouço os gritos de meu pai. É um vasto purgatório cósmico - Vulcão me ameaça. Vidas loucas perpassam tudo.

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