sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Febre do Rato


 

“Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos cantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto, acima de tudo pergunte na hora mais tranquila de sua noite...” Rainer Maria Rilke, Cartas a um jovem poeta.

 

Beirando a loucura no abismo do rio que divide a cidade, o rapaz berra aos céu com seu alto-falante - inaudível e protegido. A distância do barco até a ponte o separa da agressividade perversa e implacável do mundo que o rodeia, a imagem revela saturada um rapaz que se contorce em dizer o calado pelos outros – estáticos.

Donde o desespero de Zizo em contornar o estado de alienação dominante, é político? A cólera pode ser arma-dura contra a opressão. O anarquista que grita de plenos pulmões pode ser tão somente um publicitário do seu próprio ego, alerta a personagem Eneida. A questão jaz talvez na concepção do que seja esse grande outro opressor, na sua face obscurecida pela modernidade líquida, na privação do inimigo contrastante que facilmente reconheceríamos se fosse passível de apontamento.  A polícia, o Estado, a alienação, a moralidade, o instinto de Constancia e outros, são respostas possíveis. Quando tudo isso soa distante, a pergunta volta, e é preciso refazê-la. A política, o que é? Hoje o filme “Febre do Rato” refaz essa pergunta, e o que significa refazer a pergunta acerca da política? É preciso saber então o significado desta palavra antes e hoje, penetrar no surgimento desse substantivo e questionar sua origem.

A palavra “política” deriva do grego polis, que significa Cidade. Tudo aquilo que haveria de ter relação com os assuntos da Cidade foi por eles caracterizado com adjetivo “político”. A política não é, a princípio, o agrupamento de leis, a regulamentação de um sistema, a organização de um Estado, o estabelecimento ou a divisão de um poder, mas sim, tudo aquilo a que essas determinações servem: a Pólis. E a pólis,por sua vez é o conjunto de todos os elementos que compõem a unidade de um território, e a própria determinação desse território enquanto foi conquistado e deve ser mantido por um certo grupo de pessoas. A polis define um espaço físico, comporta indivíduos em grupo que se estabelecem ali habitando por tempo ilimitado. Dessa maneira organiza-se uma definição concreta: a polis é um lugar no espaço, um lugar definido por uma fronteira limitadora. Podemos reconhecer paralelamente a esta definição, uma outra que lhe é derivada. A manutenção desse limite que interrompe o espaço de atuação de um grupo é estabelecida pelo poder e pela força. É sobretudo o domínio dessa área de atuação que mantém, arriscando um equilíbrio delicado, a unidade do território e uma identidade comum a esse grupo de pessoas. A política é o necessário para que uma concentração de pessoas que almejam permanecer sob  domínio de um espaço se estabeleça. Propriamente, a política é a construção delicada de uma fronteira que separa a cidade do seu entorno, sua organização interna que estabelece como prioridade eternamente vigente defender-se do grande Outro, do Bárbaro não civilizado, mantê-lo fora do dentro da cidade. O poder e a hierarquia se instauram de dentro com o objetivo de estabilizar a densidade perigosa dos dois espaços apartados. Toda a moral é construída derivando o significado de bem e mau a partir dessa identidade social reforçada, de uma hierarquia erigida sob o temor opressivo do fora, de tal maneira que imediatamente se identifica os paradigmas de Bom com o que é em prol da manutenção da polis, e  de Mau com a ruptura dessa manutenção:

 

“assim, por exemplo, este axioma: a moralidade não é outra coisa (e,portanto, não mais!) do que obediência a costumes, não importa quais sejam; mas costumes são a maneira tradicional de agir e avaliar. Em coisas nas quais nenhuma tradição manda não existe moralidade. O homem livre é não-moral, porque em tudo quer depender de si, não de uma tradição: em todos os estados originais da humanidade, “mau” significa o mesmo que “individual”, “livre”, “arbitrário”, “inusitado”, “inaudito”, “imprevisível”.” Aurora, Friederich Nietzsche.

 

 

 À pergunta inicial: o que significa refazer a pergunta acerca da política? Reconhecemos o que antes haveria de ser definido por essa palavra. O que é ainda hoje vigente dessa concepção anterior? Hoje fala-se muito em liberdade, fala-se sobretudo do direito à liberdade como uma questão política. A palavra liberdade para os antigos não significaria senão uma contradição, sobretudo se essa liberdade significasse a liberdade de um sistema político opressor. A Pólis é antes de tudo um forte muro que protege os homens do perigo, libertar-se disto seria entregar-se ao vazio desertor do lado de fora. Por que e em que medida o homem moderno reivindica liberdade? Certamente não haveríamos de reivindicar algo visivelmente danoso a nós mesmos. Talvez melhor fosse perguntar de quê se quer libertar.  

O homem moderno acredita ter superado as leis fundadas na razão arcaica, que outrora fora encarnada por homens medievais. Os Cidadãos dizem ter superado a crença cega no Deus fantasmagórico e pernicioso, e hoje preferem ser lúcidos e práticos: Deus não precisa existir, basta que exista o Estado – o contrato social. Creem solucionar assim os problemas sociais deflagrados unicamente por questões morais ultrapassadas. Sua altiva visão de mundo quer revelar que a moral antiga é um peso para a humanidade, é preciso funda-la antes e sobretudo na utilidade, afinal não poderiam compreender nada fora da utilidade - lhes pareceria ilógico. Por outro lado, jovens artistas e ativistas da política atuais reivindicam para si o legado de desertores, almejam a destruição do sistema capitalista, que acreditam ser o culpado de todos os males da modernidade. A moralidade é repudiada porque acreditam tê-la superado: e acreditam tê-la superado porque se acreditam plenamente ateus: e se acreditam plenamente ateus porque consideram Deus ultrapassado. Pode acontecer que seu ateísmo seja uma revolta contra qualquer domínio autoritário ou patriarcal que lhes prive o direito de serem livres, acreditam que o capitalismo e a moralidade são em conjunto uma prisão ditatorial que deve ser combatida ferozmente em prol de liberdade. A liberdade é defendida em oposição à ditadura e às leis.

A liberdade é instaurada, segundo a concepção de ambos, como um direito de todos os homens. Liberdade: nada mais que o benefício prévio de uma valorosa negociação, a certificação de que os direitos do indivíduo sejam respeitados. Liberdade talvez não possa ser colocada justamente aí, talvez a assertividade de opinião política, artística ou humanista, não possa aí penetrar.:

 

“Liberdade: ter a vontade de responsabilidade própria. Manter firme a distancia que nos separa. Tornar-se indiferente a cansaço, dureza, privação, e mesmo à vida. Estar pronto a sacrificar à sua causa seres humanos, sem excluir a si próprio.”[1]

 

Que quer dizer a libertação de um indivíduo senão a imersão grande, enormemente povoada de insólito tempo, trabalhada gentilmente e almejada por simples amor, nos flancos de seu próprio homem? Quem poderia argumentar em vez de eu – ali onde o sufocado de palavrório da garganta se cala? O “socialmente” impede a errância de salvar sua existência sempre firme na alma.  Quem sabe, troquemos enfim a palavra por outra – O sexualmente que intervela por tudo, que passando recorre aos sonos miúdos para revelar-se. Queremos e briguemos conosco em sonhos frios e quenturas rastejantes pelo pulo que faz do visto a visão, pela alma só, e pela aurora de todo futuro no presente inteiro. A arte é toda quando vinda de aí, vê-se então que não é de luzes fracas aquele que grita de plenos pulmões, desde que os pulmões estilhaçados do barulho que machuca o híbrido fino sejam eles todos abertos desde as víceras - Poesia, desde de que o homem não mais, ele só, revele orgia de todos instintos, arquétipos, retiros - e não mais o vento bravo que de se ausentar nos momentos sóbrios implica na verdade com os momentos simples, desde que poeta seja só poeta enquanto os artigos definidos sejam por fim abolidos da evocação de suas línguas lancinantes, desde que fale torpe e caído na vala podre que todos compartilham com o nojo humano atravessado por todos os horizontes, desde que a grande Merda se torne o sagrado final dos desejos tremendos de extinção do eu pequeno, desde que Poeta seja Deus torpe e impregnado de um mundo desses que nem ninguém almeja, mundo desses que de tão presente se desfazem, mundo desses que quando aperta o passo os rapazes vestidos amarram o sapato e abrem o guarda-chuva, mundo desses que a pá do defunto não deixa páreo pra tanta lama, mundo desses estrupiado sob o sol grosso que penetra o crânio suando as verdades conhecidas, mundo que se come rente em gente crente e em gente doente. Mundo-esse Mudo que se cratera terroso e cônico no ânus do universo. Mundo-Abismo.



[1] NIETZSCHE,Friedrich.Humano, demasiado humano.São Paulo:Companhia das Letras,2008.

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