“Não há senão um caminho. Procure
entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se
estende suas raízes pelos cantos mais profundos de sua alma; confesse a si
mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto, acima de tudo pergunte na
hora mais tranquila de sua noite...” Rainer Maria Rilke,
Cartas a um jovem poeta.
Beirando
a loucura no abismo do rio que divide a cidade, o rapaz berra aos céu com seu
alto-falante - inaudível e protegido. A distância do barco até a ponte o separa
da agressividade perversa e implacável do mundo que o rodeia, a imagem revela
saturada um rapaz que se contorce em dizer o calado pelos outros – estáticos.
Donde
o desespero de Zizo em contornar o estado de alienação dominante, é político? A
cólera pode ser arma-dura contra a opressão. O anarquista que grita de plenos
pulmões pode ser tão somente um publicitário do seu próprio ego, alerta a
personagem Eneida. A questão jaz talvez na concepção do que seja esse grande
outro opressor, na sua face obscurecida pela modernidade líquida, na privação
do inimigo contrastante que facilmente reconheceríamos se fosse passível de
apontamento. A polícia, o Estado, a
alienação, a moralidade, o instinto de Constancia e outros, são respostas
possíveis. Quando tudo isso soa distante, a pergunta volta, e é preciso
refazê-la. A política, o que é? Hoje o filme “Febre do Rato” refaz essa
pergunta, e o que significa refazer a pergunta acerca da política? É preciso
saber então o significado desta palavra antes e hoje, penetrar no surgimento
desse substantivo e questionar sua origem.
A
palavra “política” deriva do grego polis,
que significa Cidade. Tudo aquilo que haveria de ter relação com os assuntos da
Cidade foi por eles caracterizado com adjetivo “político”. A política não é, a
princípio, o agrupamento de leis, a regulamentação de um sistema, a organização
de um Estado, o estabelecimento ou a divisão de um poder, mas sim, tudo aquilo
a que essas determinações servem: a Pólis.
E a pólis,por sua vez é o conjunto de
todos os elementos que compõem a unidade de um território, e a própria
determinação desse território enquanto foi conquistado e deve ser mantido por
um certo grupo de pessoas. A polis define um espaço físico, comporta indivíduos em grupo que se estabelecem ali
habitando por tempo ilimitado. Dessa maneira organiza-se uma definição concreta:
a polis é um lugar no espaço, um lugar definido por uma fronteira limitadora.
Podemos reconhecer paralelamente a esta definição, uma outra que lhe é
derivada. A manutenção desse limite que interrompe o espaço de atuação de um
grupo é estabelecida pelo poder e pela força. É sobretudo o domínio dessa área de atuação que
mantém, arriscando um equilíbrio delicado, a unidade do território e uma
identidade comum a esse grupo de pessoas. A política é o necessário para que
uma concentração de pessoas que almejam permanecer sob domínio de um espaço se estabeleça.
Propriamente, a política é a construção delicada de uma fronteira que separa a
cidade do seu entorno, sua organização interna que estabelece como prioridade eternamente
vigente defender-se do grande Outro, do Bárbaro não civilizado, mantê-lo fora
do dentro da cidade. O poder e a hierarquia se instauram de dentro com o
objetivo de estabilizar a densidade perigosa dos dois espaços apartados. Toda a
moral é construída derivando o significado de bem e mau a partir dessa
identidade social reforçada, de uma hierarquia erigida sob o temor opressivo do
fora, de tal maneira que imediatamente se identifica os paradigmas de Bom com o
que é em prol da manutenção da polis, e
de Mau com a ruptura dessa manutenção:
“assim, por exemplo,
este axioma: a moralidade não é outra coisa (e,portanto, não mais!) do que
obediência a costumes, não importa quais sejam; mas costumes são a maneira tradicional de agir e avaliar. Em coisas
nas quais nenhuma tradição manda não existe moralidade. O homem livre é não-moral,
porque em tudo quer depender de si, não de uma tradição: em todos os estados
originais da humanidade, “mau” significa o mesmo que “individual”, “livre”,
“arbitrário”, “inusitado”, “inaudito”, “imprevisível”.” Aurora, Friederich
Nietzsche.
À pergunta inicial: o que significa refazer a
pergunta acerca da política? Reconhecemos o que antes haveria de ser definido
por essa palavra. O que é ainda hoje vigente dessa concepção anterior? Hoje fala-se
muito em liberdade, fala-se sobretudo do direito à liberdade como uma questão
política. A palavra liberdade para os antigos não significaria senão uma
contradição, sobretudo se essa liberdade significasse a liberdade de um sistema
político opressor. A Pólis é antes de tudo um forte muro que protege os homens
do perigo, libertar-se disto seria entregar-se ao vazio desertor do lado de
fora. Por que e em que medida o homem moderno reivindica liberdade? Certamente
não haveríamos de reivindicar algo visivelmente danoso a nós mesmos. Talvez
melhor fosse perguntar de quê se quer
libertar.
O
homem moderno acredita ter superado as leis fundadas na razão arcaica, que
outrora fora encarnada por homens medievais. Os Cidadãos dizem ter superado a
crença cega no Deus fantasmagórico e pernicioso, e hoje preferem ser lúcidos e
práticos: Deus não precisa existir, basta que exista o Estado – o contrato
social. Creem solucionar assim os problemas sociais deflagrados unicamente por
questões morais ultrapassadas. Sua altiva visão de mundo quer revelar que a
moral antiga é um peso para a humanidade, é preciso funda-la antes e sobretudo
na utilidade, afinal não poderiam
compreender nada fora da utilidade - lhes pareceria ilógico. Por outro lado, jovens artistas e ativistas da política atuais
reivindicam para si o legado de desertores, almejam a destruição do sistema
capitalista, que acreditam ser o culpado de todos os males da modernidade. A
moralidade é repudiada porque acreditam tê-la superado: e acreditam tê-la
superado porque se acreditam plenamente ateus: e se acreditam plenamente ateus
porque consideram Deus ultrapassado. Pode acontecer que seu ateísmo seja uma
revolta contra qualquer domínio autoritário ou patriarcal que lhes prive o direito de serem livres, acreditam que o
capitalismo e a moralidade são em conjunto uma prisão ditatorial que deve ser
combatida ferozmente em prol de liberdade. A liberdade é defendida em oposição
à ditadura e às leis.
A
liberdade é instaurada, segundo a concepção de ambos, como um direito de todos
os homens. Liberdade: nada mais que o benefício prévio de uma valorosa
negociação, a certificação de que os direitos do indivíduo sejam respeitados.
Liberdade talvez não possa ser colocada justamente aí, talvez a assertividade
de opinião política, artística ou humanista, não possa aí penetrar.:
“Liberdade: ter a
vontade de responsabilidade própria. Manter firme a distancia que nos separa.
Tornar-se indiferente a cansaço, dureza, privação, e mesmo à vida. Estar pronto
a sacrificar à sua causa seres humanos, sem excluir a si próprio.”[1]
Que
quer dizer a libertação de um indivíduo senão a imersão grande, enormemente
povoada de insólito tempo, trabalhada gentilmente e almejada por simples amor,
nos flancos de seu próprio homem? Quem poderia argumentar em vez de eu – ali
onde o sufocado de palavrório da garganta se cala? O “socialmente” impede a
errância de salvar sua existência sempre firme na alma. Quem sabe, troquemos enfim a palavra por
outra – O sexualmente que intervela por tudo, que passando recorre aos sonos
miúdos para revelar-se. Queremos e briguemos conosco em sonhos frios e
quenturas rastejantes pelo pulo que faz do visto a visão, pela alma só, e pela
aurora de todo futuro no presente inteiro. A arte é toda quando vinda de aí,
vê-se então que não é de luzes fracas aquele que grita de plenos pulmões, desde
que os pulmões estilhaçados do barulho que machuca o híbrido fino sejam eles
todos abertos desde as víceras - Poesia, desde de que o homem não mais, ele só,
revele orgia de todos instintos, arquétipos, retiros - e não mais o vento bravo
que de se ausentar nos momentos sóbrios implica na verdade com os momentos
simples, desde que poeta seja só poeta enquanto os artigos definidos sejam por
fim abolidos da evocação de suas línguas lancinantes, desde que fale torpe e
caído na vala podre que todos compartilham com o nojo humano atravessado por
todos os horizontes, desde que a grande Merda se torne o sagrado final dos
desejos tremendos de extinção do eu pequeno, desde que Poeta seja Deus torpe e
impregnado de um mundo desses que nem ninguém almeja, mundo desses que de tão
presente se desfazem, mundo desses que quando aperta o passo os rapazes
vestidos amarram o sapato e abrem o guarda-chuva, mundo desses que a pá do
defunto não deixa páreo pra tanta lama, mundo desses estrupiado sob o sol
grosso que penetra o crânio suando as verdades conhecidas, mundo que se come
rente em gente crente e em gente doente. Mundo-esse Mudo que se cratera terroso
e cônico no ânus do universo. Mundo-Abismo.
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