Respostas ao vento. Dizem que quando se ama a fonte de prazer são as respostas ao vento. Arnaldo gostava de brincar comigo de adedanha, e sempre arriscava na hora de escolher as categorias, eu as vezes não gostava, acabava brigando com ele e depois voltava ressaltando meu apego. Ele sabia me fazer rever as coisas. Nas férias de 2006 fomos na fazenda que ele herdou dos tios, qualquer coisa de muito seco é só o que se via naquelas paragens, pela noite me agarrava na bota de mentira que ele criava só para me dar razão, era invenção combinada com o dono da mercearia – havia por lá essa estória que lobo dava passo de ir embora quando reparava em espora de são Jorge, Arnaldo conhecia o lado supersticioso que eu mesmo cultivava naquela época. Era malandro medrado eu, nada queria saber do escuro azul da serra do pinhal, já lhe dizia logo que sem luz não quedava lá por mais de dia, fosse o que fosse, tinha em mim certo da quebradeira sigilosa de mula-sem-cabeça e lobisomem que fazia arranhar fechadura. Singeleza era jeito de me fazer esquecer da vida de escuro, o pé de jabuticaba gotejava pela manha o orvalho da noite fria – apinhava eu e ele embaixo com boca grande esperando aberta a gota sabor purado. Meio-dia, quando já suado o sono da noite, ia atrás dos contos em pedra, coisa que se fazia de costume em época de primavera – dizia: era sinal de sorte turva quando encontrava metade; sorte gaia quando encontrava inteira e de sorte amaldiçoada quando encontrava nenhuma, nesse dia durou foi tempo abastado até eu seguir o rumo de volta na trilha da casa grande, nada encontrei pelo monte, chorava besta acreditando no gaiato enrolão que me dissera a rima. Arnaldo riu e disse que eu não me preocupasse, que a sorte besta de quem acredita em sorte grande não ia me dar arrastão dessa vez, mostrou de cabo a descoberta que fizera, tinha sorriso torto gracioso e quando vi quase lhe arranquei os dentes. Rapaz velho que brinca de garoto me dava tapa na cara quando tirava meu azar do bolso, Arnaldo inventava quase que tudo mas eu nunca descobri mentira, na hora de falar dava sempre confiança maravilha no que dizia, mas eu tinha era raiva de saber que não sabia e rançava da boca os dentes. Quando amor é palavra de homem rapaz, quem é de rosas sempre acredita, doçura de lábios, envergadura de pernas, a menina que morava do lado trazia o resto de mim junto com a carcaça de frutas do dia, eu pedia manga mas só o que vinha era figo. Me decidi voltar.
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