Tudo no mundo que nós mesmos fazemos tem a característica fundamental da demora. O pensamento romântico, que se caracteriza pelo peso do subjetivismo interiorizado a máxima potencia, sofre tragicamente com a rapidez fluida e impassiva do viver contingente. Aquele que por intuito libera em si a força cósmica e transitória do mundo, certamente tem consciência do abismo que se coloca entre ele e o resto, ele sofre, portanto, da má digestão e gastrite a longo prazo. Ainda não sei ao certo que tipo de maquina poderia se adequar a ele. A máquina sempre estanque, reativa, programada e paralisada conclui seu trabalho a partir da ação dele, meu computador decide fazer “atualizações”, eu por outro lado prefiro que ele não as faça. A maquina funciona, o homem demora. O homem gasta sua força se cooptando a si mesmo pra que a matéria funcione, para que o trinco da porta sirva para a porta abrir, para que o computador funcione para escrever coisas, para que a geladeira gele sua comida, e ele então comer; o homem demora e a máquina executa. A demora do homem consiste como parte do seu ser. A execução da maquina consiste como sobrevivência do homem. Talvez algum diga que o homem não precisa do computador, não precisa de trinco, não precisa de geladeira, talvez, mas certamente a geladeira precisa do homem, assim como o trinco e o computador também. A geladeira precisa ser ligada para executar a geleira, e o trinco precisa ser acionado para abrir a porta.
A demora é também a demora de ser outro. Estamos aqui, sim, claro que estamos. Estamos aqui nesse mundo e nesse tempo, sim, estamos. Que outro poderíamos ter a certeza de ser que não nós mesmos? Que outro teria a audácia de se embrenhar em nós mesmos? Que outro se demora em ser avistado por nós mesmos?
A resposta dada em termos triviais fala de inconsciente, história e sociedade. Quando tudo isso soa distante a pergunta ganha vida novamente: quem é o outro? O outro dos meus sonhos, o outro a quem dou bom dia, o outro que me ignora, o outro que eu nunca conheci, o outro que eu admiro, o outro que sei por palavras contadas, o outro pedindo carona na estrada, afinal quem é esse? Tem rosto? É um fantasma? É por quem eu me apaixono? É uma presença da qual não me livrarei jamais? É um homem meu? É um homem deles? Nem mesmo sei se é um homem. Tudo que sei é a sua presença corcunda e medieval se entranhando pelas entranhas estranhadas de mim, que a sua presença corrompe o meu andar, distorce minhas ruas, esfrangalha o meu rosto, perpassa o meu suor, desliga a minha tomada.
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