O pensamento e a escrita de Camus servem ao conhecimento, a palavra brota no tecido de frases que percorrem ideias e talentos inatos. A questão que discutia com ele hoje a tarde, apesar de já sabida em grande parte, foi a constatação terminal do que é a filosofia nos tempos de agora. Residia na esperança de ter alcançado ao longo da graduação o saber filosófico, se não enquanto razão ou critério de verdade, então como espetáculo fascinante em que a plateia adere aos personagens e transfere o lugar do palco para além das cortinas, tinha em mim resposta pronta sempre que perguntavam o que era a filosofia, dizia sempre com cuidado depois de um silencio pretensioso: ...o buraco é mais embaixo... . O resultado era a apreensão quase sempre muito frágil e infinitamente distante do pulsar quase insano da palavra buraco, sobretudo aparentavam saber do que eu falava, ou acreditar sem precauções que aquilo certamente era verdadeiro. Durante o percurso descobri o buraco mais embaixo, isto é, caminhei sem volta na direção do abismo, incrivelmente me joguei sem nem uma vez perguntar se aquele buraco e aquele caminho me eram de direito, certeza que tinha de que só havia buraco mais embaixo porque vida mesma era só invenção. Comecei no não-saber nem mesmo que era o não-saber, de aos poucos ganhei dimensão de algo que começava raso e depois ia esquentando bruto, ganhado forma altista, dizia que era do gosto do filósofo as grandes alturas, que não lhe interessava a resposta que não fosse a única possível. Desde cedo notava o bradar relapso e descontrolado desses que querem recolher em si a história da humanidade, isso ou morte. Brincava de criar imagem com o filosofo voltando atrás da história toda, de todo fato, de todo sentimento, de todo outro homem, de toda paisagem, de todo cotidiano, antes da fauna e da flora e antes do burro e do cavalo, grande-pequeno que na sua lucidez absolutamente irascível, enlouquecedora e sem volta tentava expandir a história da humanidade, não para frente, mas para trás - é esforço absoluto e total que dispende em alargar o todo desde o início, fundindo a noção de linearidade do mundo possível e entrevando músculos na tarefa de perfurar o começo de tudo. Aos poucos notei mudança fria de percepção em mim, tinha olhos mais pretos a cada dia. O fundo trazia os ecos do nunca inventado e era ele único a ser imaginado, desejado. Todos os sonhos só podiam agora ser povoados pela disparidade de estar flutuando no buraco e ainda assim sob força de pesada gravidade pura, que em mim já não doía mas abraçava com todo o peso que eu almejava a cada dia sentir mais entranhado em minha pele. Mas antes disso teve crise de brônquios e empate com a Sirigu-ela, de dia fazia o morto e de noite entranha de boi eu fazia entranhar e desentranhar de mim. Fui de só fazer miar e o tempo passava longo e inalterado – de fundo fundado nada em mim mexia. E o buraco que antes já largo agora quedara plena esfera de negrume.
Todo de mim mesma já um dia resolveu de vez que então ia embora. E foi como veio, sem nem se saber de onde para onde. Sei que foi mesmo, não era brinquedo que quando quebra a mãe concerta. Ficou lá o tempo de uma vida e depois sem saber de novo onde pertencia como que saiu e foi morar noutro desalmado. Demorei de ver e acreditar, mas coisa funcionou – mexi na nuca e tive certeza: foi-se. Na alternância eu fiquei como que esperando, não sabia que tinham me deixado. O forro de luz da pele só foi reluzir muito depois de passar pela fonte da donzela Sofia.
Se hoje mexo com redoma de samba é porque só de muito capengando se descobre a cadencia do gingado.
Gostei muito da última frase! :)
ResponderExcluiresse texto tá meio capenga, precisava de uns arremates, resolvi botar mesmo assim por causa do tema, a pontuação é a maior dificuldade
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