segunda-feira, 30 de julho de 2012
Agonia
sábado, 21 de julho de 2012
Montagem
Comecemos colocando em evidência o
que compreendemos por “Montagem”. Deparamos num primeiro momento com o vasto
território em que esta palavra poderia ter e tem significado próprio, todos possivelmente
afinados com uma mesma concepção de “montagem”, que difere em cada caso unicamente
pela necessidade de particularização do gênero.
“Montagem” pertence ao vocabulário mais universal
quando utilizada em sentido coloquial, donde podemos tirar significados muito
esclarecedores sobre a origem e sentido privilegiado dessa palavra; e pertence ao
vocabulário específico do Cinema, que se apropria deste significado comum para designar
um dos estágios da fabricação de um filme. A definição mais trivial de
“montagem”, aquilo que se entende por esta palavra quando a utilizamos
cotidianamente sem maiores pretensões, diz ser esta o ato de juntar duas coisas com
alguma finalidade. Podem ser elas coisas abstratas ou concretas; coisas
meramente imaginadas ou coisas materiais: objetos, cores, palavras, notas
musicais, etc. A linha de montagem de uma fábrica convoca seus funcionários para
juntar as partes de um produto que chega fragmentado nesse estágio da produção; um
pintor monta o quadro juntando as tintas da palheta de cores; um escritor junta
as letras montando palavras; a Montagem, apesar de se diferenciar quanto ao
conteúdo daquilo que está sendo montado, tem uma característica comum a todos
os casos, a situação inicial de qualquer montagem depara com coisas separadas. Se as partes do
produto já estivessem montadas os funcionários da linha de montagem perderiam
seus empregos; se as cores já estivessem juntas o quadro do pintor não seria
pintado, pois pintar perderia a finalidade; e se as letras já estivessem
reunidas, as palavras do escritor não seriam escritas, escrever também perderia
a finalidade. Que as letras, as cores, e as partes do produto, estejam
separadas é uma condição, e,
portanto, uma exigência, da montagem. Estar separado é o ponto de partida do
ato de montar. Mas o que significa propriamente, “separação”? Novamente
procuremos a definição mais abrangente que esta palavra pode ter, assim talvez
nos aproximemos do seu sentido fundamental. A princípio poderíamos compreender “separação”
como a disjunção de uma unidade, isto é, como um corte que aparta e divide uma
coisa, antes inteira, em duas coisas separadas;mas
também podemos compreender “separação” como a simples percepção de que duas
coisas são diferentes, neste caso separar não é um ato, mas um princípio de
diferenciação. Por exemplo, se ao olhar o horizonte constato que o mar é
diferente do céu posso dizer que os dois estão separados, isto não quer dizer
que outrora os dois foram uma única e mesma coisa, afirmar que os dois estão
separados significa tão somente que mar e céu não são o mesmo. Em contrapartida, sempre
que me refiro a duas partes que outrora foram uma unidade é evidente estou me
referindo a duas coisas que, uma vez separadas, não são mais a mesma. A segunda compreensão parece ser mais vasta
que a primeira, à medida que a contém, e é portanto mais precisa com relação ao
significado da palavra “separação”. Há, entretanto, um fundamento que permanece
comum às duas concepções, trata-se do número 2. Para haver montagem deve haver,
no mínimo, duas coisas diferentes. Com efeito, se fossem uma única e mesma
coisa ela estaria desde sempre compreendida numa unidade perfeita onde não
haveria lugar para se pensar a diferença ou a separação. Disso tiramos a
conclusão de que é preciso haver no mínimo 2 coisas distintas para que haja
montagem. É importante pontuar que a palavra diferença nesse sentido não está
em oposição à noção de igualdade, mas em oposição à noção de identidade. Apenas
aquilo que é idêntico a si mesmo não se diferencia. Podem haver mesmo dois
fotogramas de imagem iguais que quando colocados em sequencia aparecem segundo
uma montagem, o fato de serem iguais não impossibilita que continuem sendo dois
fotogramas distintos um do outro, e que possam aparecer segundo uma sucessão de
imagens. A montagem pressupõe que devemos distinguir coisas separadas entre si
como condição para montarmos elas numa unidade. Devemos ser capazes, portanto,
de separar pura e simplesmente uma coisa de outra coisa, o que em ultima
instancia pressupõe alguma predisposição para a aritmética, ou pelo menos
compreender a essência do numero 1 e do numero 2.
De outra maneira, podemos definir Montagem
como aquilo que conduz a uma unidade; e deve chegar a esta por meio da junção
de fragmentos que são, eles mesmos, unidades. Nesse sentido as partes e o todo
não diferem por serem as primeiras incompletas e a segunda completa, pois as
partes não precisam do todo para se tornar unas: elas já o são. Ao contrário do
que se intui primeiramente, o todo é que precisa das partes para se tornar uno.
Em outras palavras, a unidade é o que define a incompletude das partes, de
maneira que elas só podem ser entendidas como incompletas enquanto são partes
constitutivas de um todo; separadamente não seriam nem mesmo “partes”. Segundo
este raciocínio o todo é anterior ás partes, à medida que as define. Ora, não
havíamos concluído que a separação é anterior à junção, isto é, que as partes
são anteriores ao todo? Agora concluímos que mesmo a separação em partes
depende do todo para ser compreendida enquanto separação. Enquanto tentarmos
compreender este paradoxo opondo as duas afirmações, não chagaremos a entender
as implicações do todo com as partes. Talvez a conjunção no todo deva destruir
a unidade de cada parte, diluindo o que antes eram duas ou mais unidades
distintas, numa grande unidade final.
Montagem significa tanto o ato de
montar quanto o seu efeito, pode ser uma ação ou o resultado de uma ação, a
“junção dos fragmentos” ou a “unidade
dos fragmentos”. Se a definição de montagem fosse sinônimo de “juntar coisas”,
todo e qualquer tipo de junção determinada poderia ser chamada de montagem,
porém, parece que não é assim que nos utilizamos cotidianamente ou
especificamente desta palavra. O que difere juntar de montar? A finalidade. Estabelecemos
a principio que montagem era o ato de
juntar duas coisas com alguma
finalidade, a finalidade é aquilo que define a montagem pela unidade, se
almejamos construir uma unidade é porque o ato
de unir já se tornou a finalidade desta ação; enquanto a segunda parte da
definição fala de um movimento unificador, a primeira parte revela um movimento
dissociador; ambos fazem parte do que chamamos de montagem.
terça-feira, 17 de julho de 2012
Habeamus corpus, ergo sum.
Pedaço de carne colado em mim. E
eu sou osso branco e poroso. Faço articulação de pedaços calcários procurando desde
a semente minha pobre biologia desumana. Os genes cresceram crentes apenas em
si mesmos, e escarram vida com destroços terminados. Na evolução da cervical fundam a verdadeira arquitetura
da destruição: pé de pato, cabeça dinossauro, riso de besouro, e dedo de mosca.
Volto a dizer que a mosca poderia ser tremenda no escárnio, regozijando as
lambanças orgânicas, mas não seria páreo na política bem feita de palavrões sabidinhos.
Homem e mosca é juntura corrente no milênio do ano virado, de primeira concordância agarante-se que é do
senado a montagem do inseto com o cérebro , mas a verossimilhança é bem antes
do concurso de um que nasce, o encontro romântico das duas espécies é fabricação
de genes lá na barriga - a mosca e o moço num vibrar seletivo de espécies
selecionadas feitos um para o outro que querubim abençoa mesmo essa união. Num
segundo prodigioso faz-se a inauguração! No ar o inseto gigante, asas abertas e
o corpo todo frágil, os três mil orifícios oferecendo a benção aos Deuses categóricos da podridão.
Homem: resto de homens, a vasta possibilidade
de ter sido os tantos que em ventre venciam a mágoa mas por descuido rancaram
da cópula dos muitos juntos apenas um quieto rápido que em mil passões por
segundo resvalou fugaz de vagina feminina. Nasci de restos humanos ,de
fragmentos unificados pela bicharada, sou eu e meu diafragma a montagem de um
pensamento utópico: os homens não são políticos. Ideia que vem de festeira
querendo na festa desarrumar o canto esmeraldal politécnico dos espermas
socialmente crescidos.
Mosca: bicho esqueroso polifórmico,
é traçado sem vertigem com grosso modo de querer avançar nas coisas sórdidas, ê
bicho maravilha! Corre de um em outros recorrendo aos traços desenhados pelo
mel docilizado do suor magro, enquanto a baba do quiabo sob o cadáver lhe
cheira o tesão de abelha boa – o mel do defunto denota o gozozinho térmico.
Voava e voará atrás do algoz comum, que sem respaldo e resvalando no descuido
do impulso solto empurra a mão de cima a baixo, de lado a outro, e futuca o
inseto lhe desfazendo os miúdos. Grita-se em gosma o hino da pátria fudida e
gentil.
domingo, 15 de julho de 2012
Os Três
1. As Mulheres
Queria esculpir o corpo de todas
as mulheres. Era ela na cabeça a tão só, pequena e concisa, vontade de reescrevê-las.
Ah, como era grata pela vontade que lhe assediava o corpo quando ganhavam
tardia plumagem as mulheres escusas - as faces que não foram desfrutadas e os
rostos que um dia resplandeceram em trono de Afrodite. Queria forjar encontros
e desencontros como se fosse a tarde descendo púrpura, e desenhar um mosaico de
pernas róseas raspando a pele leitosa no desenlace das cordas. As Mulheres:
tinos de um mesmo alvoroço particular. Fremiam espetáculos travando o músculo
longo na mandíbula doce; as peles se encontrando no toque rastejante e as
línguas na lambança virginal que sorviam-se.
Cercavam-se pelos flancos tratando no bote transversal da subida densa do
calor nó de cobra. Donde a saliva e o suor aguavam, em abundância davam de comer
aos insetos preciosa gordura. Hastes de metal firmavam as ristes felinas, com
canhotas unhas rasgavam o tremor nas nucas e no coro cabeludo o atrito incendiário
apartava, grunhiam aos céus e os gritos lancinantes ecoavam dos subterrâneos
infernos.
2. As Cusparadas
O diabo entendia na casa desregulada, cactos claros de sombra pequena restavam meses sem água, e a poeira lenta tapava os poros da televisão. O mármore branco da cozinha envelhecia e a ferrugem das cordas vocais só tocava no tom intimista do fraquejar, na geladeira o pote de mostarda era o humos espesso que degradava o amarelo em estranho musgo. A cama, seca, branca, restava no fundo do corredor oferecendo densas visitas de domingo – as mulheres ali sempre, desde há muito, com fluência, participavam do universo extenso, atemporal, vertiam híbridos. Anos largos, cachorros latos e bandeiras, tamancos, tudo girava no quarto, o centro cumpria a tensão dos pólos enquanto dos andaimes caíam homens másculos, da porta havia o dito: “sobram os anos não vividos” . Relaxar no salão, o ambientado do colchão duro intera a coluna, esticando os vícios, desmontando-se no chão. Raios de sol flanando pela tarde, as janelas e os gases lacrimogêneos da revolução, lábios ultra-vermelhos tentando lamber, ácidas cusparadas.
3. O Cardíaco
As sombras de um pensamento terrível se apossaram. O amor que devora é um machado no peito de quem sangra sem as mãos para afagar. Sinto mais medo do que antes. Ouço os gritos de meu pai. É um vasto purgatório cósmico - Vulcão me ameaça. Vidas loucas perpassam tudo.
domingo, 1 de julho de 2012
Karin
De uma vida levam-se as contas de vidro.
O silencio de seus gestos mortos jazia em mim
consciência, fugazes horas de desespero se seguiam ao miúdo pensamento nela.
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