quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

O Anfitrião


              

A importância de dizer algumas palavras pode se tornar a necessidade de confessar uma falta ou saudade. Não devemos atender ao chamado tão prontamente assim, antes podemos fechar os olhos e engatilhar outros pensamentos despedaçados, revolver no tempo a vertigem de ter chegado ao lugar de segurança , ou relembrar caótica e contente a memória de um amor. No estado de contemplação em que se encontra a natural calma de quem acaba de chegar estão também presentes seus maiores inimigos, a dor da saudade e a iminência de remoçar o erro. Aproveitemos a oportunidade para conhece-los melhor, sejamos corteses com nossos queridos inimigos, façamos com que pertençam em nós como estando em sua casa: ofereçamos o alimento afável de cada refeição, o leito onde irão descansar e dormir, e a água do banho que os farão mais limpos. Assim os mantemos sempre fiéis e observados, alegres e encantados com sua nova casa. A presença desses calorosos visitantes há de lhes ser proveitosa das mais variadas formas, aprenderás a conduzir uniformemente a estadia de um ente dentro de si, aos poucos te tornarás anfitrião em sua própria casa e assim escolherás seus visitantes com doçura e desconfiança, se tornando um grande acolhedor de almas perdidas. Pois se aquele almeja estar em casa deve antes se tornar um bom anfitrião, e de passo em passo deixar entrar seus visitantes, abrir-lhes as portas, aos bons, maus e indiferentes, com emprego e circunspecção, saberá então o valor do humor mediano, traçarás conversas e servirás comida com um bom inimigo sem pestanejar sua presença duradoura. Sua permanência se tornará pequena e circunstancial pois serão sempre seus meros visitantes. Ao fim de cada estadia desejar-lhes outros bons anfitriões, que lhes sirvam tão bem e gentilmente como nós, nesse dia anoitecerá mais cedo e o seu sono será maior e mais solto que nos outros dias, seu corpo ser-lhe-á grande e confortável, os cabelos mais longos e finos, e as mãos mais cálidas e sutis; e quem sabe surja então diante de tamanha altura e força dos ossos um homem que pertença em casa, na saudade do lar e na escuridão da estadia. Grato pela imensa sombra que o atingiu ele descansará na redonda e perfeita noite da sua solidão.



Um comentário: