1. Taxi driver
He's a prophet and a pusher, partly truth, partly fiction. A walking contradiction. Betsy.
O filme de Martin Scorsese inicia com um close-up dos olhos da personagem principal, a seqüência é inteiramente filmada em slow-motion deixando a mostra apenas o movimento inquieto dos olhos de Travis que oscilam de um lado para o outro observando com fixação o que ocorre do lado de fora do seu taxi. O close-up é entrecortado por cenas da cidade de Nova York á noite, a iluminação em low-key ( com profusão de sombras), a fotografia saturada e a trilha sonora de jazz perturbadora que oscila entre um grave pesado e um agudo quase insuportável ,num movimento parecido ao que percorrem os olhos de Travis, criam desde já uma atmosfera de suspense para o filme. Durante toda a seqüência inicial a presença do slow-motion estabelece um contraste direto com a movimentação latente da cidade iluminada, a cena termina com o taxi de Travis desaparecendo para fora do quadro e uma fumaça fantasmagórica invadindo a tela e deixando transparecer o título do filme em preto e amarelo, as cores do taxi.
A primeira cena pode frequentemente nos revelar as questões principais de um filme, desde o tom dramático que será adotado até as características estéticas fundamentais. Taxi driver é considerado um filme neo-noir de 1976 e como podemos perceber nessa primeira cena trabalha com os elementos desse gênero em praticamente todas as suas possibilidades estéticas e mesmo filosóficas, o primeiro corte indica que vemos a cidade de Nova York do ponto de vista de Travis e parece que na seqüência do filme é justamente em cima da perspectiva que o filme vai problematizar as questões sociais que o Noir propõe.
Há duas técnicas bastante recorrentes durante “Taxi driver”, a primeira é uma tentativa de transpor a perspectiva de Travis para o olhar objetivo da câmera e diz respeito ás interferências que a montagem faz no filme usando frequentemente o slow-motion e a repetição proposital de elementos recorrentes na vida do personagem servindo para desacelerar o tempo da ação e evidenciar a sensação de tempo interno prolongado do personagem principal, as cenas em que Travis aparece dentro do taxi dirigindo quase sempre contém uma dessas duas técnicas de montagem. A segunda técnica é visível em quase todas as cenas de “apresentação” do local em que vai se desenrolar a cena, e funciona visando o objetivo oposto da primeira técnica, a câmera ocupa um lugar praticamente documental com relação a narrativa retratando os locais sempre em plano geral e mantendo uma distancia substancial do que está sendo filmado, o enquadramento lembra a estrutura narrativa de uma história em quadrinhos.
A oposição que aparentemente permeia essas duas técnicas provoca uma alternância de paradigma, ora a câmera nos leva a ver o mundo com os olhos de Travis, ora nos leva a visitar com distancia o mundo em volta do seu taxi, no entanto as duas técnicas trabalham juntas para tecer o próprio assunto do filme. A narrativa é eminentemente simples, acompanha a história de um homem que começa a dirigir um taxi em Nova York e pouco a pouco é levado a execução de um crime, a única questão que parece ser extremamente estranha para o espectador é a causa ou motivação do crime. A revolta contra a sujeira meramente física e a escória da cidade surge como um motivo supérfluo, no decorrer do filme fica claro que a revolta de Travis não é somente uma revolta contra a decadência social que invade as ruas de Nova York, é a revolta da Alma. Como diria Alvaro de Campos: “É muito antes do ópio que a minh'alma é doente”, é muito antes de Nova York que a alma de Travis se encontra doente. Não é a toa que o filme, feito com pouco dinheiro, lucrou uma quantia enorme de dinheiro com o sucesso que teve nos mais diversos países do mundo, os espectadores se diziam identificados com Travis. A personagem é o retrato de toda uma Era, e sua “doença” é própria doença do século XX.
Em entrevista o roteirista Paul Schrader fala sobre a personagem principal, segundo ele, Travis é um homem de ação e vai percorrer seus caminhos sempre sem pensar. Essa declaração pode parecer um pouco estranha a principio para o espectador que acabou de ver no filme a história de um homem que passa o tempo todo só e aparentemente pensando, mas parece que o verbo “pensar” significa nas palavras do roteirista algo diferente de estar simplesmente fabricando idéias, pensar significa refletir, isto é, deixar transparecer, fazer presente a consciência de uma afetação. Travis desconhece o que seja esse re-conhecimento, a personagem Betsy diz sobre ele: “He's a prophet and a pusher, partly truth, partly fiction. A walking contradiction.” (“Um profeta e um ambicioso, parte verdade, parte ficção. Uma contradição ambulante.”), parte narração, parte verdade, Travis - o transviado, o traveler - vive no fio da navalha entre o agir e o pensar, dirige seu taxi nas noites escuras e sujas levando pessoas de um lugar a outro, na transição entre a partida e a chegada, guardião vagaroso no perigo das ruas seu taxi é o cinema do mundo aberto na sua janela.
A montagem do filme trabalha incessantemente para construir e sustentar essa contradição, ela desloca o espectador e propõe que ele mesmo “resolva” o que motivou Travis a cometer o crime. O filme nada mais é que um embate de imagens em movimento, uma negando e afirmando á outra recíproca e simultaneamente. Taxi driver é certamente uma experiência ativa para quem o assiste, entre ficção e realidade o filme exige explicações e trás muitas dúvidas que não pretende resolver. A beleza do filme é justamente a maneira estritamente cinematográfica de colocar os problemas, não permitindo que o espectador se perca na ficção, mas imprimindo nele uma profusão de imagens explosivas que como uma metralhadora incessante de cores, sons e sentidos múltiplos exige que a própria impossibilidade de fixar um único sentido seja a “história” do filme.