segunda-feira, 7 de novembro de 2011

TAXI DRIVER


 
1.     Taxi driver

He's a prophet and a pusher, partly truth, partly fiction. A walking contradiction.    Betsy.


O filme de Martin Scorsese inicia com um close-up dos olhos da personagem principal, a seqüência é inteiramente filmada em slow-motion deixando a mostra apenas o movimento inquieto dos olhos de Travis que oscilam de um lado para o outro observando com fixação o que ocorre do lado de fora do seu taxi. O close-up é entrecortado por cenas da cidade de Nova York á noite, a iluminação em  low-key ( com profusão de sombras), a fotografia saturada e a trilha sonora de jazz perturbadora que oscila entre um grave pesado e um agudo quase insuportável ,num movimento parecido ao que percorrem os olhos de Travis, criam desde já uma atmosfera de suspense para o filme. Durante toda a seqüência inicial a presença do slow-motion estabelece um contraste direto com a movimentação latente da cidade iluminada, a cena termina com o taxi de Travis desaparecendo para fora do quadro e uma fumaça fantasmagórica invadindo a tela e deixando transparecer o título do filme em preto e amarelo, as cores do taxi.

A primeira cena pode frequentemente nos revelar  as questões principais de um filme, desde o tom dramático que será adotado até as características estéticas fundamentais. Taxi driver é considerado um filme neo-noir  de 1976 e como podemos perceber nessa primeira cena trabalha com os elementos desse gênero em praticamente todas as suas possibilidades estéticas e mesmo filosóficas, o primeiro corte indica que vemos a cidade de Nova York do ponto de vista de Travis e parece que na seqüência do filme é justamente em cima da perspectiva que o filme vai problematizar as questões sociais que o Noir propõe.

Há duas técnicas bastante recorrentes durante “Taxi driver”, a primeira é uma tentativa de transpor a perspectiva de Travis para o olhar objetivo da câmera e diz respeito ás interferências que a montagem faz no filme usando frequentemente o slow-motion e a repetição proposital de elementos recorrentes na vida do personagem servindo para desacelerar o tempo da ação e evidenciar a sensação de tempo interno prolongado do personagem principal, as cenas em que Travis aparece dentro do taxi dirigindo quase sempre contém uma dessas duas técnicas de montagem.  A segunda técnica é visível em quase todas as cenas de “apresentação” do local em que vai se desenrolar a cena, e funciona visando o objetivo oposto da primeira técnica, a câmera ocupa um lugar praticamente documental com relação a narrativa retratando os locais sempre em plano geral e mantendo uma distancia substancial do que está sendo filmado, o enquadramento lembra a estrutura narrativa de uma história em quadrinhos.  

A oposição que aparentemente permeia essas duas técnicas provoca uma alternância de paradigma, ora a câmera nos leva a ver o mundo com os olhos de Travis, ora nos leva a visitar com distancia o mundo em volta do seu taxi, no entanto as duas técnicas trabalham juntas para tecer o próprio assunto do filme. A narrativa é eminentemente simples, acompanha a história de um homem que começa a dirigir um taxi em Nova York e pouco a pouco é levado a execução de um crime, a única questão que parece ser extremamente estranha para o espectador é a causa ou motivação do crime. A revolta contra a sujeira  meramente física e a escória da cidade surge como um motivo supérfluo, no decorrer do filme fica claro que a revolta de Travis não é somente uma revolta contra a decadência social que invade as ruas de Nova York, é a revolta da Alma. Como diria Alvaro de Campos: É muito antes do ópio que a minh'alma é doente”, é muito antes de Nova York que a alma de Travis se encontra doente. Não é a toa que o filme, feito com pouco dinheiro, lucrou uma quantia enorme de dinheiro com o sucesso que teve nos mais diversos países do mundo, os espectadores se diziam identificados com Travis. A personagem é o retrato de toda uma Era, e sua “doença” é própria doença do século XX.

Em entrevista o roteirista Paul Schrader fala sobre a personagem principal, segundo ele, Travis é um homem de ação e vai percorrer seus caminhos sempre sem pensar. Essa declaração pode parecer um pouco estranha a principio para o espectador que acabou de ver no filme a história de um homem que passa o tempo todo só e aparentemente pensando, mas parece que o verbo “pensar” significa nas palavras do roteirista algo diferente de estar simplesmente fabricando idéias, pensar significa refletir, isto é, deixar transparecer, fazer presente a consciência de uma afetação. Travis desconhece o que seja esse re-conhecimento, a personagem Betsy diz sobre ele: “He's a prophet and a pusher, partly truth, partly fiction. A walking contradiction.” (“Um profeta e um ambicioso, parte verdade, parte ficção. Uma contradição ambulante.”), parte narração, parte verdade, Travis - o transviado, o traveler - vive no fio da navalha entre o agir e o pensar, dirige seu taxi nas noites escuras e sujas levando pessoas de um lugar a outro, na transição entre a partida e a chegada, guardião vagaroso no perigo das ruas seu taxi é o cinema do mundo aberto na sua janela.  

A montagem do filme trabalha incessantemente para construir e sustentar essa contradição, ela desloca o espectador e propõe que ele mesmo “resolva” o que motivou Travis a cometer o crime. O filme nada mais é que um embate de imagens em movimento, uma negando e afirmando á outra recíproca e simultaneamente. Taxi driver é certamente uma experiência ativa para quem o assiste, entre ficção e realidade o filme exige explicações e trás muitas dúvidas que não pretende resolver. A beleza do filme é justamente a maneira estritamente cinematográfica de colocar os problemas, não permitindo que o espectador se perca na ficção, mas imprimindo nele uma profusão de imagens explosivas que como uma metralhadora incessante de cores, sons e sentidos múltiplos exige que a própria impossibilidade de fixar um único sentido seja a “história” do filme.       








domingo, 12 de junho de 2011

Reservoir Dogs






A idéia não é oferecer uma crítica de cinema, nem escrever uma tese sobre um filme. A idéia é escrever sobre cinema. Escrever sobre cinema não é tarefa banal, escrever sobre imagens é como traduzir algo essencialmente intraduzível. Mas então por quê escrever? Escrever unicamente para escrever, talvez tecendo essas idéias aqui sem muito compromisso essas mesmas idéias tomem vida e saiam por aí desenhando os filmes, se isso acontecer quem sabe a palavra e a imagem não se aproximem e então esse blog poderá começar a falar de coisas grandes com alguma grandiosidade.
Comentário, críticas e outros são especialmente bem vindos.


um conselho:
Leia depois de ver.




Com a tela ainda preta tem início uma voz quase libidinal :

 “Let me tell you what 'Like a Virgin' is about.

It's all about a girl who digs a guy with a big dick. The entire song. It's a metaphor for big dicks.”
           
Estamos ansiosos por tiroteios de gângsters que a capa do DVD promete e parece que ‘Like a virgin’- o maior hit da nossa amada musa pop que já foi muito subversiva nos seus tempos áureos de libertação sexual-  nada poderia sugerir acerca de uma epopéia sangrenta normalmente povoada de ação, assassinatos, e alguma piada tacanha.
Na sequência temos 8 homens reunidos em torno de uma mesa redonda de lanchonete, a câmera gira em torno da mesa deixando a mostra ora o rosto de um, ora o rosto de outro e a teoria sobre Like a Virgin segue com Tarantino narrando sistematicamente cada passo na argumentação magistral de que like a virgin  é na verdade a historinha não de uma virgem mas de uma mulher que curte muito um pau. A historinha é basicamente essa: a mulher que curte muito um pau encontra um cara que tem um pau enorme, o pau dele é tão grande que quando eles trepam dói como se ela fosse uma virgem - não deveria doer porque essa mulher é tipo uma "sex machine" que trepa todo dia, toda hora.. mas dói, como uma virgem.- por isso, "Like a virgin"- .
A virgem da música mais sexy dos anos 90 é na verdade uma "sex machine", ou, como poderíamos comumente chamar “uma puta”, não no sentido de vender o corpo, mas no sentido comum de mulher que dá pra todo mundo. Guardemos essa informação.
Depois da lanchonete temos uma cena do Mr.Orange com o Mr.White dentro de um carro; Mr.Orange está completamente ensanguentado por causa de um tiro na barriga e tem sangue por todos os lados. Apesar de ainda estar vivo ele vai provavelmente morrer sangrando,o que leva Orange a urrar de dor e desespero. Na frente do carro dirigindo está o Mr.White, ele tenta recompor a calma do amigo segurando sua mão e dizendo que vai ficar tudo bem; parece se sentir verdadeiramente mobilizado por fazer aquele cara completamente fudido no banco de trás sobreviver,ou pelo menos,morrer em alguma paz, podemos dizer que durante toda essa cena inicial até a chegada do Mr. Pink, o Mr. White é movido por um sincero sentimento de compaixão.

Sobre compaixão.

Aqui é preciso abrir um parêntesis exatamente sobre essa palavra “compaixão”, é necessário fazer uma distinção. Deixando de lado o sentido cristão da palavra que é basicamente representado pelo chavão repetido em toda missa de domingo pelas ovelhas desgarradas que proferem em coro: - “ Amar que ser amado.” , o sentimento de compaixão pode ser muito bonito. O significado cristão da palavra ganha um sentido imperativo que na minha opinião em ultima instância tem pouco a ver com compaixão, “ amar que ser amado” é antes mais associável com resignação que com compaixão na medida em que faz necessária a primazia do “amar” sobre o “ser amado”; e inclusive ouvindo isso nas missas de domingo podemos reparar que o tom de voz que o coro usa é um pouco resignado, se me permitem o comentário. Aparentemente, seria preciso apaziguar a dor do amor- provavelmente o não correspondido- aceitando a supremacia, a beleza de um sentimento sobre o outro. Em outras palavras, seria preciso converter “amar” numa  atitude mais nobre e mais pertinente que a vontade de ser amado, o que nos tornaria livres da dor e escravos da penitência e das missas de domingo.
            Mas na verdade um dos sentimentos mais bonitos que um ser humano é capaz de sentir é a verdadeira compaixão. Eu nunca havia parado para pensar nesta outra compaixão até que li num livro a seguinte explicação:

“Todas as línguas derivadas do latim formam a palavra “compaixão” com o prefixo com -  e a raiz passio, que originariamente significa “sofrimento”. Em outras línguas, por exemplo em tcheco, em polonês, em alemão, em sueco, essa palavra se traduz por um substantivo formado com um prefixo equivalente seguido da palavra “sentimento” (em tcheco: soucit;em polonês: wspol-czucie;em alemão: Mit-gefühl; em sueco: med-känsla). 
(...) Nas línguas que formam a palavra compaixão não com a raiz “passio: sofrimento”, mas com o substantivo “sentimento”, a palavra é empregada mais ou menos no mesmo sentido, mas dificilmente se pode dizer que ela designa um sentimento mau ou medíocre. A força secreta de sua etimologia banha a palavra com uma outra luz e lhe dá um sentido mais amplo: ter compaixão ( co-sentimento) é poder viver com alguém sua infelicidade, mas é também sentir com esse alguém qualquer outra emoção: alegria, angústia, felicidade, dor. Essa compaixão ( no sentido de soucit, wspol-czucie, Mitgefühl, med-känsla) designa, portanto, a mais alta capacidade de imaginação afetiva – a arte da telepatia das emoções. Na hierarquia dos sentimentos, é o sentimento supremo. (MILAN KUNDERA, A insustentável leveza do ser.)"

Repare que em latim a palavra compaixão tem sua raiz designando “sofrimento”, ora, o latim é justamente a língua em que são faladas as missas católicas originalmente. Em algumas outras línguas a mesma palavra é formada a partir do substantivo “sentimento” que acompanhado com o prefixo com formaria algo do tipo “com-sentimento”,  significando algo do tipo “co-sentimento”.
Co-sentimento significa a capacidade de sentir o que outra pessoa está sentindo, seja esse sentimento “autorizado” ou não. Simplesmente, sem esforço ou escolha, a compaixão gera uma inclinação até o outro. Na interpretação do autor tcheco o significado de compaixão me parece muito mais refinado, é mais humano e menos moral que o significado católico. Eu tomaria esse segundo sentido da palavra compaixão para falar da cena inicial entre Orange e White. A cena em que os dois chegam no depósito onde vai se desenrolar o resto do filme é uma bela cena de amor,se me permitem ser piegas. Orange pede a White que fique ali com ele, White cuida do rapaz, penteia seu cabelo e lhe diz uma piada no ouvido, Orange ri feito uma criança em meio a espasmos de sofrimento tanto físico e psicológico. Surge uma relação de afeto entre Mr.White e Mr.Orange, no fim do filme é justamente essa relação que determinará o destino dos dois gângsters e até mesmo dos outros reservoirs. O que mobilizaria um vínculo desses? – Compaixão? Primeiramente sim, mas me parece que quando um homem está morrendo com uma bala na barriga empestado de sangue e urgindo de dor pouco mais importa a seu respeito, mesmo que ele seja um matador professional. Primeiro compaixão mas talvez depois hajam outros elementos nisso aí.
Acho que a maioria dos espectadores descarta que Orange seja o traidor logo no início do filme, e acredito que isso seja por causa de compaixão católica, ou seja, moralidade. Mas isso permanece uma questão em aberto, se por um lado o Tarantino dá uma “ajudinha” impondo um ritmo frenético ao filme que em pouco tempo nos faz até esquecer que Orange é um suspeito, por outro lado parece que ele também sugere à sua maneira sobre isso quando o Mr.Pink diz pro Mr.White que qualquer um pode ser o traidor, inclusive o rapaz ensangüentado no chão; claro que White reage furiosamente a essa colocação. Ganhamos mais algumas dicas reparando na reação dos próprios gângsters a princípio existiriam duas formas possíveis de encarar  Orange: poderíamos ver nele simplesmente um cara fudido que precisa de ajuda, e nesse caso sentimos sincera compaixão (como faz o Mr. White); ou sentimos por ele piedade, e nesse caso sentimos o dever moral de ajudar o próximo; de fato essa ultima possibilidade só pode ser verificada entre os espectadores. Tem ainda uma terceira opção que seria a lá Mr.Pink em que simplesmente permanecemos em dúvida quanto a conduta do sujeito, nem inocente nem traidor, nesse caso mesmo um Orange fudido jogado no chão envolto de uma poça de sangue é apenas um ponto de interrogação. Sem compaixão ou moral o Pink resume tudo a racionalidade e nesse momento a racionalidade vai dizer:    “- Ele é tão somente um possível traidor”.  
Tarantino brinca com o espectador, as idéias de compaixão e mesmo as idéias morais que povoam o filme não estão propriamente no filme. Todos os personagens geram identificação ou repulsa em algum momento: o Mr. White pela sua conduta, o Mr.Pink pela sua racionalidade, o Mr.Blonde porque ele é super cool e o Mr.Orange primeiro porque ele tá fudido e depois porque ele tem o culhão de ser um policial infiltrado. Não há um compromisso com a moral dos personagens enquanto algo a ser construído sem “falhas”, sem contradição, os Reservoirs são e não são filhos da puta, tem e não tem motivos para fazer o que fazem, e justamente por isso são chamados personagens “realistas”. Numa entrevista com Tarantino sobre Reservoir Dogs ele comenta empolgado  que os gângsters de verdade adoraram o filme, por que se identificaram com o comportamento de um gangster fora do seu “ambiente de trabalho” , que é o de uma outra pessoa qualquer que ouve música, vê tv e tece opiniões sobre assuntos em geral. Os personagens serem pensados assim significa que muito do conteúdo “dramático”desse filme é construído a partir dessa brincadeira entre o que o espectador espera de uma certa personagem e o que aquela personagem é de fato, ou que se mostra ser com o passar do filme.

Como uma virgem


Like a virgin é a música mais sensual e mais tabu de toda uma era da indústria musical, foi alvo de muitos protestos moralistas quando Madonna apareceu vestida de noiva dançando eroticamente e cantando a música da virgem.Claro que isso não impediu que a musica fosse um sucesso. E é claro que se vestir de noiva, cantar essa música e dançar eroticamente é extremamente irônico. Essa mesma ironia aparece em Reservoir Dogs quando vemos por exemplo  Mr.Orange, o pobre coitado gerador de compaixões no início do filme se transformar num policial traidor filho da puta - ou simplesmente a própria “puta”.. - .Claro que o espectador não se importa que Orange esteja traindo a organização dos gangsters, isso seria super trivial.O que não é trivial e muito menos honesto é que Orange traia aquele cara que se mobilizou por ele até o momento da morte: Mr.white.  Independente de o espectador ser cristão ou não, parece que todos concordam que o mais legitimo, o que não deve ser ferido, é a cumplicidade entre eles. No momento em que Orange trai essa cumplicidade ele trai o espectador, a moral e é claro a Virgem; no caso da virgem uma tal “traição” pode ser denominada pelo ato de perverter, ou se preferir, pelo ato de subverter. Precisamos esclarecer que não estamos falando de dois homens comuns que vivem sob uma moral qualquer simplesmente dada por aí, esses caras vivem sob um código ético que determina suas vidas, donde trair esse código significa trair a sua própria essência, ou mesmo perder aquilo que faz deles homens, e é isso mesmo que dá sentido a vida deles. Logo a relação entre os dois tem algo de muito mais consistente e até profundo do poderia parecer á primeira vista
Veja, Tarantino perverte o sentido "turista" de like a virgin no início do filme e faz isso pervertendo exatamente O monumento da moral, a Virgem, ele literalmente transforma a virgem numa puta, e isso não é pouca coisa... é com essa mesma voracidade sistemática da primeira fala que ele termina por perverter todo o sentido moral que dá a Orange a benção da inocência, transformando “aquele que sofre como Jesus na cruz” no traidor de “Jesus na cruz”. Mas parece que não é só esse o alvo da perversão, talvez essa seja apenas uma delas. Vamos tentar dar mais corpo a essas especulações.   
           

            Mr. Blonde e a perversão

É sensacional como o assassinato do Mr.blonde pelo Mr.orange impedindo a morte triunfal do policial capturado é recebido pelo espectador como um ato heróico! É com grande alívio que o espectador constata muito feliz  que o policial não vai morrer queimado na sua frente sem mais nem menos. Nesse estágio do filme Mr.Blonde já não representa mais o gostosão, depois que ele quase queima o policial o espectador passa a sentir uma espécie de pavor dessa personagem, e no momento auge revelador da sua atuação,um momento tão simbólico que deveria ser até usado para dar aula de psicanálise, ele é impedido de cometer o seu crime, é castrado pelo policial morto-vivo que aparece de volta para matá-lo. O policial alivia toda a tensão do espectador- alias, esse é seu papel dentro e fora da tela; manter a segurança, afastar os objetos de perigo, em ultima instancia, manter a castração- aniquilando o horror do que está prestes a acontecer. Depois de tirar a orelha do policial fora Blonde vai queimá-lo vivo, e vai fazer isso na frente de todos aqueles que vieram ver o filme de gangster que a capa do DVD prometia.
Talvez seja esse O ato subversivo por excelência, talvez seja essa a perversão, ou sub-versão,  que estávamos procurando.


5 minutos

Alguém mais acha que a cena do Mr.Blonde dançando com a navalha na mão é umas das melhores cenas do cinema, de todos os tempos?
Por favor, 5 minutos de silêncio para esta cena.







ok, continuando.
           
Um PS.:

Repare que o Mr. Blonde faz questão de deixar bem claro que tanto faz se o policial tem informações relevantes sobre o assalto ou qualquer coisa do tipo; sua tortura é justificada unicamente porque ele é policial, e Mr.Blonde adora torturar policiais.
Essa fala pode chocar muitos espectadores que se espantam com a violência da cena.Um espectador que pensa assim poderia ser o mesmo que ao ver tropa de elite não se espanta com o policial que tortura os neguinhos "em prol da segurança nacional", ou melhor, até se espanta, mas não o suficiente a ponto de problematizar a natureza "imparcial" do filme ou mesmo a natureza “imparcial” das operações especiais do Bope, nada contra a imparcialidade, embora duvide que em tropa de elite ela se sustenta,porém me incomoda quando ela ganha status e fica parecendo de um mérito enorme, inenarrável, ser justamente imparcial. É muito provável que Reservoir Dogs com todas as suas cenas propositalmente de caráter “controverso” seja muito mais “imparcial” que tropa de elite, sendo boa imparcialidade aquela que demonstra sua parcialidade e nisso se mostra com sinceridade, não obscurece a opinião mas pelo contrário faz ela aparecer exatamente no seu teor categórico, o que não significa insolente ou “taxativo”, o nome desse troço é sinceridade. Os personagens desse filme estão transbordando de opiniões que desde o início fazem questão de deixar a mostra, desde Pink defendendo “não dou gorjetas”até Blonde torturando o policial em prol de “nada” . Além do mais se a questão da tortura é a mesma que "ter um justificativa para torturar" garanto com razão que quem tortura raramente tem uma "justificativa" para isso, ou até mesmo algo que justifique racionalmente ; não venha me dizer que "querer provas" é um motivo racional para torturar, porque certamente não é. Um policial do Bope poderia estar fazendo 1 milhão de coisas pra acabar com o trafico de drogas, mas em algum momento ele acha que é mais eficiente torturar os neguinhos, beleza, é uma forma de ver as coisas, só não venha me dizer que isso é em algum momento necessário para a melhoria das nossas vidas, ou que isso é feito em prol de um outro algo muito mais elevado que justifica, justamente, a tortura. Além disso, tem personagens e personagens, uma figura como o Mr.Blonde é carregada de simbolismos e é uma verdadeira heresia, uma verdadeira falta de senso, tirar o personagem fora de compreensão possível só porque ele é um psicopata, ainda mais quando esse personagem é possivelmente um dos mais interessantes entre todas as histórias de gangsters já feitas.
           

Mr.Blonde x Mr.White.

Há uma certa oposição entre o Mr. Blonde e o Mr.White : um é o branco e o outro é quase o Black, é uma versão sexy do Black, se quiser uma versão sedutora do Black- o Blonde. Esse nome me lembra um filme do Sergio Leone chamado "Três homens e um conflito", em que o Clint Eastwood interpreta um papel semelhante ao do Mr.Blonde e seu nome é Blondie, tem algumas semelhanças entre os dois filmes: o duelo final entre os três matadores (the ugly, the bad, the good) que é semelhante ao duelo final de reservoir dogs entre os gângsters;  e a figura, principalmente o olhar, do Mr.Blonde e do Blondie que são muito semelhantes. Além disso os dois filmes são extremamente irônicos, no filme de Sergio Leone Blondie é apresentado como "The good"(o bom), e certamente não tem esse nome porque poderia ser personagem de conto de fadas. Mas não vamos nos alongar por aqui, os conflitos entre Blonde e White são muito reveladores e é preciso dar atenção a isso.
Assim como Sergio Leone dá os nomes: o bom, o mau, e o feio em Três homens em conflito,Tarantino dá os nomes: Pink,Orange,White,e Blonde em Reservoir Dogs, nessa brincadeira os nomes certamente não são escolhidos ao azar. Joe, o "Coisa", diz para os gangsters contratados: " Eu escolho os nomes, já tentei cada um escolher o seu mas não funciona, vocês todos ficam brigando para ser o Mr.Black..." Joe é o chefe, na hierarquia desse negócio Joe equivale a Tarantino. Enquanto Joe dá os nomes Tarantino dá os personagens, as cores dizem quem é quem no jogo .
O Mr.White parece logo no inicio que pode ser o impostor por ser o cara do "know-how", um cara tranquilo mesmo nos momentos mais críticos que certamente desempenha sua função com exímia experiência, isso percebemos no tratamento que ele dá ao Orange fudido com um tiro na barriga e na conversação entre ele e Pink em que ele insiste que é preciso ficar “cool” e fumar um cigarrinho. Até então o espectador não decidiu ou não descobriu se ser Branco nessa profissão é ser o cara do know-how porém esperto, ou se ser branco é ser uma espécie de guardião das leis primitivas,uma espécie de ancião que deve guardar os segredos da tribo e guardar a ordem justa e primitiva desse trabalho.  
Sr. Blonde parece logo de cara que não é o impostor – quando o Sr. Pink diz : “Agora só podemos acreditar nele”, até esse ponto da história a gente já sacou que o Sr.pink é um professional, além de ser um desses escrotos com bons argumentos, ele nos convence de que pelo menos momentaneamente o Sr. Blonde não deve ser o impostor. Mais adiante, depois do fash-back do Sr.Blonde conversando com o Joe e com o Nice Guy Eddie no escritório, ele volta a ser um candidato forte, essa personagem nos seduz para deixá-lo ser o impostor, é como se fosse sexy imaginar ele como o impostor, imaginar ele cool do inicio ao fim .
Na próxima resenha voltarei a perscrutar essa personagem, por enquanto ficamos com essas especulações ainda iniciantes...
A cada fim de resenha deixarei uma leitura que combina com o que venho escrevendo, a leitura da vez tem bastante a ver com a nossa personagem Mr.Blonde, me inspirei muito nesse livro para falar essas besteiras aí sobre ele: “Eros e civilização, Herbert Marcusse. “ . Uma outra coisa que recomendo fortemente é a trilha sonora desse filme que como todas as trilhas sonoras do Tarantino é fodarástica! Divirtam-se.